| Kiko Cabral/Globo/Divulgação |
 Reynaldo Gianecchini foi escalado inicialmente para viver o Pedro Assumpção em Belíssima |
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Por toda a eternidade, a imagem da Viúva Porcina está ligada à da atriz Regina Duarte. Do mesmo jeito, a tresloucada Vani, de Os Normais, está definitivamente associada a Fernanda Torres. E ainda a fogosa protagonista de "Gabriela" não poderia mesmo ter sido feita por mais alguém além da atriz Sônia Braga. Mas, na verdade, nenhuma destas personagens nasceu na cabeça dos autores do jeito que foi ao ar.
A Viúva Porcina, por exemplo, estava endereçada a Betty Faria. Vani foi oferecida a Andréa Beltrão - e recusada. E no caso de Gabriela, a idéia da produção era que Gal Costa fizesse o papel - no final, Gal só cantou a música de abertura da novela. Esses e outros papéis nasceram destinados a determinados atores e acabaram nas mãos de outros. Nesse "troca-troca" de personagens, há quem se arrependa e quem tenha saído no lucro.
É o caso de Reynaldo Gianecchini. Ele foi escalado inicialmente para viver o Pedro Assumpção em Belíssima - papel que ficou com Henri Castelli - e acabou ganhando o borracheiro Pascoal. "O Silvio de Abreu queria que eu fizesse um personagem durante toda a trama. Ele propôs o papel e eu adorei", comemora.
Gianecchini apenas mudou de função dentro da mesma trama, mas há casos de atores que herdam um protagonista de algum colega que não aceitou o convite. Foi o caso da Sol, interpretada por Deborah Secco em América. O papel estava inicialmente programado para ser de Cláudia Abreu. A atriz acabou recusando e, meses depois, aceitou viver a Vitória em Belíssima. "Foi um momento em que eu queria mais tempo para me dedicar à minha família. Agora tudo se encaixou", explica.
Muitas vezes, porém, os motivos que promovem uma "dança das cadeiras" em uma novela fogem aos desejos dos envolvidos. Foi o caso da troca de papéis entre Marcelo Serrado e Leonardo Vieira em Prova de Amor. Algumas cenas chegaram a ser gravadas com Leonardo interpretando o mocinho Daniel e com Marcelo na pele do vilão Lopo Jr. Mas uma hérnia inguinal impossibilitou Leonardo Vieira de fazer as muitas cenas de ação que o mocinho pedia. A solução foi a troca pura e simples que, curiosamente, era a idéia original do autor Tiago Santiago. "Inicialmente, eu seria o vilão, mas a Record achou melhor dar o papel para o Marcelo. As coisas são como têm de ser. Não tem jeito", acredita Leonardo.
Se a "mão do destino" age de fato em certas situações, é verdade também que, muitas vezes, alguns atores contribuem para o desfecho. E, às vezes, recusar um papel pode significar abrir mão de um personagem com potencial para se tornar um clássico. Betty Faria que o diga. Não satisfeita em recusar o papel de Júlia Matos em Dancin' Days, de 1978 - personagem que coube a Sônia Braga -, ela deixou passar a oportunidade de viver a célebre Viúva Porcina em Roque Santeiro. "Entreguei a Porcina de bandeja para a Regina Duarte. Aliás, cansei de fazer isso. Foi uma grande bobagem. Me arrependi muito depois", admite.
Outros fatores, como a tentativa de fugir de algum estereótipo, também contribuem para a troca de atores num determinado papel. Em Senhora do Destino, Carol Castro estava escalada para fazer a Regininha, a espevitada madrinha de bateria da Escola de Samba Unidos de Vila São Miguel, que acabou ficando com Maria Maia - por indicação do diretor e pai, Wolf Maia.
Segundo Carol, a intenção era evitar comparações com sua personagem anterior, a Gracinha, de Mulheres Apaixonadas. A atriz, então, deu vida à meiga Angélica. "Fiquei feliz com a mudança. A Angélica é uma autêntica boa moça, bem diferente da Gracinha. Nenhum ator gosta de se repetir", justificou na época.
Também para fugir do estereótipo de mulher fatal, Virgínia Cavendish pediu para fazer a "workaholic" Maria Teresa na série Avassaladoras, que estréia em janeiro na Record. Depois das sensuais Inaura em Lisbela e o Prisioneiro e Maria Padilha em A Grande Família, dessa vez a atriz deixou o tipo sexy para a colega Débora Lamm. "Eu só não quero fazer o mesmo tipo a vida inteira. Queria descobrir outras facetas de atuação", argumenta.
Criadores e criaturas
A troca de atores para determinados papéis também pega de surpresa os autores. Quando escreveu Cabocla, em 1979, Benedito Ruy Barbosa pensou o papel principal para Sônia Braga. Com a recusa da atriz, o personagem acabou marcando a estréia de Glória Pires como protagonista. "Por causa do tipo físico da Glorinha, tive que reescrever os primeiros capítulos. Tinha imaginado a Zuca como um mulherão", conta o autor.
Da mesma forma, Glória Perez foi obrigada a rever o perfil da Sol, em América com a recusa de Cláudia Abreu. Segundo a autora, a atriz queria o papel, mas pretendia conciliar o trabalho com a dedicação à família. "Ela só podia gravar quatro dias na semana e o Jayme Monjardim, que era o diretor, disse que assim não conseguiria gravar. Eu tive de ceder", revela.
O perfil do personagem é algo tão primordial para os autores que muitos deles constroem um tipo já tendo um ator em mente. É o caso de Silvio de Abreu, que agora em Belíssima volta a trabalhar com conhecidos parceiros. "Minhas novelas nascem pelo elenco. Queria reencontrar Irene Ravache, Lima Duarte e Fernanda Montenegro. Eu sempre imagino que personagem cada ator faria", conta.
Nem sempre, porém, é fácil conseguir o ator desejado para determinado papel. Mesmo Manoel Carlos, hoje uma unanimidade no meio artístico, já amargou uma recusa. "Quando escrevi Sol de Verão, em 1982, queria a Vera Fischer para o papel principal, que foi interpretado pela Irene Ravache", recorda.
Instantâneas
# Cotada para fazer a Nenê em A Grande Família, Marília Pêra acabou substituída por Marieta Severo porque exigiu que seu nome viesse antes do de Marco Nanini nos créditos.
# Letícia Spiller é uma espécie de recordista de "nãos" da Rede Globo. Entre os papéis que ela recusou e pararam nas mãos de outras atrizes estão Hilda Furacão, que ficou com Ana Paula Arósio, e a Jade de O Clone, vivida por Giovanna Antonelli.
# Com a hesitação de Regina Duarte para fazer Malu Mulher, o diretor Daniel Filho chegou a pensar em Marília Pêra.
# A vilã Yolanda Pratini, interpretada por Joana Fomm em Dancin' Days, foi oferecida anteriormente a Norma Benguell.
# Letícia Sabatella chegou à Globo em 1989 para fazer o papel principal na minissérie Tereza Batista. Com o atraso nas gravações, ela foi fazer o especial Os Homens Querem Paz e o papel na série ficou com Patrícia França.
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