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Walter Avancini pode ser considerado um dos diretores mais inventivos da tevê brasileira. E também um dos mais cruéis, tirânicos e maquiavélicos. Responsável por obras-primas da teledramaturgia nacional, como as novelas Gabriela e Saramandaia e as minisséries Grande Sertão: Veredas e Morte e Vida Severina, mantinha hábitos que causavam estranheza em quem não estava acostumado.
Entre outras idiossincrasias, só chamava os atores pelo nome dos personagens, não deixava que entrassem no estúdio com o "script" na mão e acreditava que o elenco rendia melhor sob pressão. Na esperança de melhor compreender o nada convencional método de trabalho de Avancini, a jornalista Ângela Britto conversou com 52 profissionais, entre atores e técnicos, e lançou o livro O Último Artesão.
"Só duas, de tantas que procurei, não quiseram participar. O que acho um saldo positivo. As pessoas prestavam o depoimento como uma forma de homenagear seu mestre", observa.
Não é de se admirar, portanto, que Avancini tenha feito desafetos. Se dois não quiseram participar ¿ a jornalista não revela quem ¿ outros tantos não retornaram as ligações ou alegaram problemas de agenda. A atriz Taís Araújo e o escritor Walcyr Carrasco foram dois deles.
Já Bruna Lombardi, que interpretou a Diadorim de Grande Sertão: Veredas, só aceitaria se fosse por e-mail. "Por e-mail, você perde a pausa, o riso, o choro. Por isso, não topei. Gosto do olho no olho", justifica a autora do livro. Mas, em vez de lastimar a falta de alguns, Ângela se diz agradecida pela disponibilidade de outros.
Desde que começou a maratona de entrevistas, há cerca de dois anos, conseguiu sabatinar grandes nomes da tevê brasileira, como Tarcísio Meira, Regina Duarte e Tony Ramos. "Durante os depoimentos, houve quem se emocionasse e chegasse às lágrimas. O Taumaturgo foi um deles. Chorei quando ouvi o depoimento em casa transcrevendo as fitas", brinca.
Choradeiras à parte, o tom que predominou nas entrevistas foi o mais bem-humorado possível. Também pudera. Algumas histórias são tão trágicas, que chegam a ser risíveis. Tarcísio Meira, por exemplo, não esquece o dia em que gravou uma cena de Cavalo de Aço em um rio caudaloso.
Lá pelas tantas, o que era para ser a simulação de um naufrágio transformou-se em um de verdade. Longe de ficar sensibilizado com o desespero dos atores, Avancini continuou gravando tudo, como se nada estivesse acontecendo.
Já Carla Regina, que atuou em quatro novelas consecutivas na extinta Manchete, relata que perdeu a conta das atrizes que "morreram" em cena porque se recusaram a fazer cenas de nu. Quando não "matava" quem não fazia o que ele queria, ameaçava demitir quem pedia cristal japonês para chorar ou chegava atrasado às gravações.
Em Maricá, onde gravou Xica da Silva, pedia sempre que a gerência do hotel esvaziasse a piscina e não vendesse bebida alcoólica aos atores. "Ator bom é ator desempregado. Depois que assinam contrato, ficam cheios de frescura", costumava vociferar.
Ângela Britto, aliás, recorre à outra frase de Avancini para classificar a experiência de escrever O Último Artesão: Um trabalho só é difícil quando não é divertido. Os dois se conheceram na extinta Manchete em 1998, quando Ângela trabalhava como repórter e Avancini apresentava e dirigia o programa Mistério.
Da primeira vez que se viram, ouviu Avancini comentar com uma maquiadora: "Quem é essa moça? Ela tem um rosto tão exótico". Foi o suficiente para um dos cinegrafistas mexer com Ângela: "Ih, cuidado, hein? Assim, você acaba em Mandacaru.", gracejou.
Em vez de gostar da idéia, Ângela ¿ que fez Tablado na adolescência ¿ quase surtou. "Deus me livre!", pensou na época. Hoje, porém, ela lamenta não ter tido a chance de ser dirigida por aquele que considera o maior formador de atores da tevê brasileira.
"Acho fundamental que a nova geração saiba quem foi e o que fez Walter Avancini. Se deu certo com Regina Duarte, Elizabeth Savalla, Nívea Maria, por que não daria para quem está começando agora?", acredita.
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