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Quarta, 31 de agosto de 2005, 11h39 
"Tive medo de sair na rua", diz Jaime Leibovitch
 
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Chamado às pressas para interpretar o pedófilo Bill em América, Jaime Leibovitch, 58 anos, nem teve tempo de compor o personagem. "Fui chamado na sexta-feira e comecei a gravar na segunda-feira", disse o ator, em entrevista ao Portal Terra.

Apesar da correria, o ator, que também é psicólogo, não teve dificuldade em montar o personagem. Medo, no entanto, ele teve. "No começo tive medo da reação das pessoas", contou.

Confira, a seguir, a entrevista exclusiva de Jaime Leibovitch ao Terra.

Você teve medo da reação do público?
Quando fui convidado, fui alertado que poderia enfrentar uma reação ruim do público. No começo, eu tive medo. No dia seguinte ao capítulo que foi praticamente todo dedicado à fuga do Bill, eu decidi não pegar ônibus. Como não tenho carro, eu comprei dois jornais e passei o dia todo em casa. Mas já estou acostumado aos olhares das pessoas. Algumas apenas me olham e caem na gargalhada, porque o personagem tem uma dose de patético e de ridículo. Se eu não acostumasse aos olhares, estaria paranóico.

Mas como é que o público tem reagido?
Claro que só posso falar sobre a zona sul do Rio de Janeiro, que é por onde eu circulo, mas a reação das pessoas tem sido surpreendente. É bastante boa! Muitas me param para falar, mas sempre de forma simpática. Eu brinco, digo que fui deportado dos Estados Unidos para o Brasil e que já fui solto. As pessoas fazem comentários gratificantes, me contam que seus filhos estão mais atentos. Eu noto que elas estão gratas com esse trabalho que a Glória Perez inaugurou. E eu colho migalhas desse bolo.

Além de ator, você é psicólogo. Isso ajudou a compor o personagem, não?
De certa forma, sim, porque eu nem tive tempo de estudar sobre o personagem. Fui chamado em uma sexta-feira e na segunda já comecei a gravar. Como psicólogo, sei que um pedófilo é uma pessoa incapaz de se relacionar com adultos e que busca na criança, que é manipulável, o que não consegue no adulto. Muitos adultos que eu atendi me ajudaram a entender a pedofilia. Eles contavam, com muito ressentimento, experiências que viveram na infância. Por outro lado, ser psicólogo foi um complicador. Porque sempre que se fala de pedofilia, um dos comentários é que os pedófilos buscam profissões com as quais tenham que lidar com crianças. E eu já trabalhei muito com crianças, tanto como professor de arte quanto como psicólogo. Isso poderia confundir as pessoas ainda mais.

Tem alguma previsão de o Bill voltar à trama?
O meu contrato foi de um mês e já venceu. Mas os ecos da história continuam. O que eu tive que fazer, que foi levantar a bola da denúncia, eu já fiz. Agora estou em cartaz com uma peça no Rio: Else, no Centro Cultural Sérgio Porto, à meia-noite de sextas e sábados.

Você acha que a discussão da pedofilia na TV tem efeito?
Eu acho que há resultado. As pessoas parecem estar bem conscientes sobre o tema. Vivemos uma época em que estão desaparecendo os limites. Minha geração, por exemplo, levantou a bandeira do ¿é proibido proibir¿. Hoje a gente percebe os equívocos dessa postura liberal. A função paterna, enquanto representante da lei e dos limites, está cada vez mais esgarçada.

E a internet nisso tudo? Ela é a grande vilã?
Eu nem tenho computador, acesso meus emails de cibercafés. A internet, como disse o policial na cena da prisão do meu personagem, é a rua dentro de casa. Mas a pedofilia vai além da internet. Ela já existia muito antes. Crianças são assediadas desde sempre, dentro de casa, por pais, avós, tios.

Como foi trabalhar com o Matheus Costa, que vive o Rique?
O Matheus é um capítulo à parte. Ele é um menino de apenas 7 anos, mas já é um ator fantástico. Ele é muito inteligente e muitas vezes me dirigiu e me deu muitos toques. Nem sei o que ele sabe sobre pedofilia. Acredito que ele saiba apenas o que um menino de 7 anos pode saber, mas ele é muito inteligente. Trabalhar com o Matheus foi uma grata surpresa.


 

Redação Terra
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