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Domingo, 6 de março de 2005, 14h14 
Aguinaldo Silva é o rei da novela das oito
 
André Bernardo
 
Jorge Rodrigues Jorge/TV Press
Aguinaldo Silva é especialista em novela das oito
Aguinaldo Silva é especialista em novela das oito
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O autor de novelas Aguinaldo Silva é um vaidoso assumido. Desses que compram todos os cremes, perfumes e hidratantes a que tem direito. "Enquanto existir a L'Oreal, meu cabelo não fica branco", ri.

Mas a vaidade do autor não é apenas estética. Com o sucesso de Senhora do Destino, ele ficou ainda mais cheio de si. De todos os autores da Globo, é o único que só escreveu novelas para o horário das oito. Além disso, das 12 novelas de maior audiência da emissora, cinco foram escritas (ou co-escritas) por ele. A Roque Santeiro, Tieta, Pedra Sobre Pedra, Fera Ferida e Vale Tudo convém acrescentar Senhora do Destino, com 49 pontos de média e 73% de "share".

"Meu maior acerto foi escrever cada capítulo como se fosse o penúltimo. Afinal, o penúltimo é sempre o mais eletrizante", ensina.

Aos 60 anos, Aguinaldo gaba-se da responsabilidade de falar, todas as noites, para um público estimado em 60 milhões de pessoas. Por isso, garante, toma cuidado com tudo o que escreve. "Numa novela das oito, não dá para ousar muito. Como sou conservador, sempre me pergunto se gostaria de ver determinada cena na tevê", avalia.

Mesmo assim, Senhora do Destino liderou o mais recente "ranking da baixaria", divulgado pela campanha "Quem Financia a Baixaria É Contra a Cidadania". De um total de 269 reclamações, 54 foram contra Senhora do Destino. "Se a novela não tivesse a audiência que tem, ninguém se chocaria com coisa alguma", desconversa.

E pensar que por pouco Aguinaldo Silva não desistiu da profissão em 2001, quando assinou a malograda Porto dos Milagres. "Ali, estava em crise. Aquela novela não passou de uma repetição de tudo que já fiz", lamenta. Hoje, ele não só desistiu de requerer aposentadoria, como acaba de renovar com a Globo até 2010. Nos próximos cinco anos, vai ter de entregar mais três novelas e uma minissérie.

"Daqui a seis meses, a Globo vai querer me encomendar uma nova Senhora do Destino. Só não quero é cair na tentação de repetir a fórmula. Quero que cada novela minha seja uma surpresa para mim mesmo", garante.

P - O que passa pela cabeça de um autor quando termina de escrever uma novela de 220 capítulos?

R - Ah, é basicamente alívio. Escrever novelas é um exercício físico muito exaustivo e um esforço mental ainda maior. Mas, ao mesmo tempo que você sente alívio, sente também uma certa nostalgia. Quando escreve uma novela, os personagens da vida real passam a não ter mais importância para você. Às vezes, estava aqui em casa trabalhando quando chegava um amigo contando uma história terrível que aconteceu com ele ali na esquina. Na mesma hora, me perguntava: "Mas essa história não está na minha novela. Quero saber é da Nazaré..." (risos)

P - Senhora do Destino tornou-se uma das maiores audiências dos últimos dez anos. Como o ibope interfere no seu trabalho?

R - Toda novela é um salto no escuro para o autor. Você nunca sabe o que vai acontecer. Se a sua novela vai ser um sucesso ou um fracasso. Quando vi que a audiência começou a ser positiva, senti um alívio muito grande. Só senti realmente orgulho nas últimas semanas. Aí, comecei a pensar: "É, realmente, foi um grande trabalho!". Mas nunca perco de vista o fato de que novela é trabalho de equipe. Se um autor disser a você que a novela é dele, não acredite, ele está mentindo. Ele pode até ser o cabeça, mas a novela não existiria se não fosse a direção, a produção, o elenco.

P - Pela primeira vez, você teve a chance de acompanhar a audiência através do aparelho de medição instantânea instalado no seu computador. O que achou disso?
R - É, aquela maquininha é meio misteriosa. Às vezes, ela demora a engrenar. Outras vezes, dá um salto. Confesso que ela me deixou viciado. Inicialmente, ela estava instalada no meu notebook. Quando começava a novela, eu ficava com um olho nela e outro no aparelhinho. Um belo dia, eu estava em Itaipava quando caiu um raio de-não-sei-onde, porque não estava chovendo, e o meu "notebook" pifou. Foi aí que instalei o aparelhinho no computador da minha casa, que fica longe da televisão. Com isso, passei a consultá-lo só nos intervalos comerciais, o que é menos angustiante... (risos)

P - Em algum momento, você se deixou influenciar pelo Ibope?

R - Com essa novela, aconteceu uma coisa estranha. Ela pegava do Jornal Nacional uma audiência em torno de 38 pontos e, até 21h10, ficava entre 45 e 50. A partir das 21h10, então, passava dos 50 e não párava mais de subir, independentemente da trama que estivesse no ar. Com isso, não me foi possível saber em que histórias, por exemplo, as pessoas se levantavam para fazer xixi.

P - Como se sente ao saber que fala, todas as noites, para um público estimado em 60 milhões de pessoas?

R - Isso é muito complicado. Todo dia, eu me perguntava: "Meu Deus, o que eu vou dizer hoje para essas pessoas?". A responsabilidade, reconheço, é muito grande. Numa novela das oito, você não pode ousar muito. Porque as minhas opiniões, vamos e venhamos, podem não combinar com as opiniões de quem está assistindo, não é mesmo? Por isso, costumo dizer que novela é um produto que se dirige a um público tão grande que você tem de ser cuidadoso com o que escreve para não chocar ninguém...

P - Qual é o seu principal critério para saber se determinada cena vai ou não chocar o público?

R - Alguns pentecostais trabalham na minha casa e sei que todos eles assistem à novela. Uma coisa que eu sempre me pergunto é: "Como será que eles vão me olhar amanhã?". Eu me preocupo muito com a opinião deles porque sei que, se eles não ficarem chocados com o que viram, então, as outras pessoas também não ficarão. Recentemente, fiquei preocupado com a cena em que a Nazaré lavava privadas na delegacia. No dia seguinte, estava no escritório quando uma delas abriu a porta, me cumprimentou com uma risadinha e foi embora. Logo, pensei: "Ah, que bom, ela gostou!"

P - Mesmo assim, Senhora do Destino liderou o "ranking da baixaria". O que achou disso?

R - De fato, Senhora do Destino bateu todos os recordes de queixas. Deve ser o programa mais abominável da tevê brasileira, não? Mas a verdade é que a gente tem de ler as entrelinhas. Qualquer coisa que as pessoas achem chocante na novela ganha mais proporção por causa da audiência. É natural. Se a novela não tivesse a audiência que tem, ninguém se chocaria com coisa alguma. Acho até que a novela foi bastante cândida se comparada a outras coisas que tenho visto na televisão.

P - A uma semana do final da novela, já arriscaria apontar Senhora do Destino como uma de suas favoritas?

R - Ah, sim, seguramente. Essa novela foi muito importante porque significou um rompimento com tudo o que eu já tinha feito antes: as tramas regionalistas, o realismo mágico. Recomecei do zero. Do zero, não, porque a minha experiência anterior não podia ser descartada. Mas quis fazer algo que não tivesse o menor vestígio de Aguinaldo Silva. Por essas e outras, ela mostrou que posso escrever mais novelas e, principalmente, que posso escrever mais novelas surpreendentes.

P - Mas você duvidava disso?

R - Eu estava em crise. Porto dos Milagres, por exemplo, não passou de uma mera repetição de tudo que eu já tinha feito antes. E não só eu estava me repetindo, como todos os demais autores. Nós estávamos sempre fazendo as mesmas novelas. Para o público, isso funcionava. Mas, para mim, não. Era incômodo. Por isso, resolvi mudar. Queria fazer alguma coisa realmente nova.

P - Que personagens de Senhora do Destino superaram as expectativas?
R - Eu tive muito medo do núcleo da Comunidade da Pedra. Pelo realismo daquela favela, achei que as pessoas pudessem rejeitá-la. Tive receio da história do Barão e da Baronesa. Achava que a história daqueles velhinhos elétricos poderia não agradar. Inclusive a outros velhinhos. Tive medo também de que a Nazaré ficasse "over" demais. Por isso, apelei para o humor. Ao contrário de outros vilões, que ganham todas, ela sempre fracassa. Para fugir do Madruga, por exemplo, desceu por uma corda e, quando chegou em casa, descobriu que esquecera a bolsa. No final, todos funcionaram, cada um à sua maneira.

P - E qual deles ficou aquém do esperado?

R - Olha, tem um personagem que, por culpa minha, acabou não rendendo o esperado, que foi a Yara. Fiquei devendo essa para a Helena (Ranaldi). A certa altura, tive de transportá-la para a casa da Maria do Carmo. E, lá, eu já tinha personagens demais com histórias demais. Aí, tive de sacrificar alguém e acabou sendo a Yara.

P - Se estivesse viva, o que sua mãe, a verdadeira Dona Maria do Carmo, teria achado da novela?

R - Provavelmente, ela faria como a Maria do Carmo: se não gostasse de alguma coisa, falaria na cara! Honestamente, acho que ela ficaria ofendida com algumas coisas. Minha mãe tinha o mesmo espírito autoritário em relação aos filhos que a Do Carmo. Ela gostava também de ter a família toda reunida e, principalmente, de interferir na vida de todo mundo. Ah, e tem a coisa da comida também. A frase "Eu tô varada de fome!", inclusive, era dela. Por essas e outras, acho que ela diria: "Meu Deus, você não podia ter feito isso comigo. Quem foi que deixou?"

O feiticeiro das oito

Aguinaldo Ferreira da Silva nunca pensou em ser autor de novelas. Nascido em uma família pobre de Carpina, no interior de Pernambuco, começou a trabalhar aos 14 anos, num cartório. Asmático, trocava o jogo de futebol com os meninos da vizinhança pela leitura de clássicos, como Dostoiévski e Camões. Filho do gerente de uma loja de autopeças com uma dona-de-casa, publicou o primeiro romance, Redenção de Jó, aos 16 anos. Da literatura, pulou para o Jornalismo. Aos 18, estreava no Última Hora, do Recife, como o mais jovem repórter da redação.

"Durante muito tempo, carreguei o título de mais jovem em tudo. É uma pena que nunca mais eu vá conseguir recuperá-lo", brinca.

Dois anos depois, Aguinaldo Silva mudou-se para o Rio, onde passou a trabalhar em O Globo, já como repórter policial. Dessa época, não esquece das cartas que trocou com o bandido Lúcio Flávio, o mais procurado da época, e da cobertura do seqüestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick por um grupo de estudantes de esquerda. Foi justamente a experiência adquirida nas redações de jornal que lhe valeu um convite para escrever Plantão de Polícia, na Globo. Desde então, não parou mais.

Em 25 anos, já escreveu quatro minisséries e nove novelas. "Escrever novelas exige 10% de talento e 90% de obsessão", calcula.

Vida em capítulos

Sempre que inicia um novo trabalho, Aguinaldo Silva segue, religiosamente, a mesma rotina. Todos os dias, tem hora certa para acordar, dormir e trabalhar. Mesmo assim, não dispensa alguns prazeres, como cozinhar, e algumas extravagâncias também, como participar de leilões de arte.

"Houve um dia em que peguei um avião e fui até São Paulo. Vi a peça que queria comprar e voltei ao Rio", confessa. Morando numa confortável casa com piscina num condomínio da Barra da Tijuca, Aguinaldo Silva vive só. Atualmente, desfruta apenas da companhia de Jorge Tadeu, um gato persa que presta homenagem ao personagem de Fábio Jr. em Pedra Sobre Pedra.

"Depois de uma certa idade, a gente precisa mais de enfermeiros do que de amantes", graceja.

Na maioria das vezes, é o próprio autor quem atende o telefone, paga as contas no banco, vai ao supermercado... "Já tive um 'staff' dentro de casa, mas percebi que essas pessoas mais atrapalham do que ajudam. Preciso de total concentração para trabalhar", avisa. A rotina de Aguinaldo começa cedo, às 5h30. Depois de preparar o próprio café, toma banho, faz a barba e troca de roupa "como se fosse sair para trabalhar".

Na verdade, desce apenas para o escritório, no primeiro andar da casa, às 7h30. Em seguida, trabalha até o meio-dia, quando faz um lanche e descansa até as 14h. Depois, recomeça o trabalho até as 18h. Nessa hora, se reserva o direito de fazer o que mais gosta: o próprio jantar. "Sou craque na cozinha. Adoro cozinhar e isso me relaxa muito", assegura.

Quase todos os dias, Aguinaldo Silva dá um pulinho no supermercado que fica ao lado de sua casa. Enquanto faz compras, conversa com caixas, empacotadoras e fregueses em geral sobre o capítulo do dia anterior. Foi nessas idas e vindas, por exemplo, que descobriu que Viviane, a personagem de Letícia Spiller, é a de maior rejeição entre o público feminino.

"Os homens adoram, mas as mulheres detestam. A Viviane é do tipo que ameaça tirar o marido das outras", arrisca. De volta das compras, prepara o jantar e assiste à novela na hora em que ela vai ao ar. "Ver depois não tem graça", sublinha. Quando o capítulo termina, liga para o diretor Wolf Maya e conversa sobre o que foi ao ar. Depois, volta para a cama, porque, no dia seguinte, começa tudo outra vez.

Trajetória televisiva:

- Plantão de Polícia (1979)
- Lampião e Maria Bonita (1982)
- Bandidos da Falange (1983)
- Padre Cícero (1984)
- Partido Alto (1984)
- Tenda dos Milagres (1985)
- Roque Santeiro (1985)
- Vale Tudo (1988)
- Tieta (1989)
- Pedra Sobre Pedra (1992)
- Fera Ferida (1993)
- A Indomada (1997)
- Suave Veneno (1999)
- Porto dos Milagres (2001)
- Senhora do Destino (2004)

 

TV Press
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