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Os tempos modernos, quem diria, provocaram o retrocesso. Tratadas antes como inovadoras e ousadas, hoje as cenas de sexo são, na maioria das vezes, podadas pelas novas regras de classificação etária da TV aberta.
Seqüências de banhos de rio como as vistas em Pantanal, reprisada atualmente pelo SBT, ou mesmo uma relação incestuosa como a da tia cafetina e do sobrinho seminarista, retratada em Tieta, em 1989, hoje jamais seriam permitidas se não fossem exibidas depois das 22h. As opiniões sobre o assunto dividem os autores e diretores, mas quase todos, apesar de não aprovarem a "censura", não se sentem limitados com as restrições de cada horário.
"Nunca precisei de leis ou fiscalização para me controlar. Sempre fiz uso do meu bom senso e até hoje não me enganei", opina Jayme Monjardim, que assinou a direção geral de Pantanal e atualmente trabalha na minissérie Maysa, que estréia em 5 de janeiro, na Globo.
Para Jayme, a culpa das atuais restrições é dos abusos cometidos no passado. Opinião dividida com colegas como Cristianne Fridman, responsável pelo texto de Chamas da Vida, novela das 22h da Record. A autora, inicialmente, escreveu uma sinopse para o horário das 20h. Mas, com as alterações na grade da emissora, acabou ganhando espaço para situações mais apimentadas. E fez questão de usar. Mas, segundo ela, sem exageros. "O horário permite uma liberdade maior para abordar temas adultos. Mas nunca esqueço que as novelas muitas vezes são assistidas por famílias inteiras", justifica. Até porque, para Cristianne, não existe uma relação direta entre cenas sensuais e aumento da audiência. "Se malfeitas, podem afastar os telespectadores", analisa.
Marcílio Moraes não concorda com a colega. Pelo menos em um dos pontos. "A apelação sempre funciona. Sexo chama atenção", atesta ele, que conseguiu prestígio na emissora com Vidas Opostas, em 2006, sem explorar cenas sensuais, apesar do horário das 22h permitir. Mesmo assim, também não acredita que uma história se sustente só pelo apelo sexual. "É um recurso que facilmente se torna banal e de mau gosto. A longo prazo, leva quem o usa ao desprestígio", pondera.
Aimar Labaki, que escreveu Paixões Proibidas para a Band e para a portuguesa RTP, carregou nas cenas quentes em seus personagens. O horário inicial de exibição da trama, a partir das 22h, e o próprio texto, inspirado na obra de Camilo Castelo Branco, permitia. Mas não foi suficiente para ultrapassar a média de dois pontos de audiência. E a trama passou para às 17h. Para o autor, o fracasso nada teve a ver com as seqüências picantes, mesmo com a proximidade com o horário que a Band vende para pastores pregarem, às 21h. "A audiência sobe com a qualidade da novela, a visibilidade que a emissora consegue dar a seu produto e a constância da grade", alfineta.
Manoel Carlos, que coleciona um sucesso atrás do outro na faixa nobre da Globo, orgulha-se por nunca ter abusado de cenas com sexo em suas novelas. E não se sente amedrontado com restrições de classificação de faixa etária. "O que limita uma cena é estar mal estruturada e mal pensada pelo autor, assim como mal executada pelo diretor ou elenco", sentencia o escritor, que explorou a sensualidade de Mel Lisboa quando escreveu a minissérie Presença de Anita.
"Era outro caso. A temática era adulta e o horário de exibição, apropriado", defende-se. Glória Perez, que se prepara para estrear, em fevereiro de 2009, Caminho das Índias, ainda não experimentou as novas regras. E confessa que isso pode atrapalhar o trabalho de um autor, mesmo quando se trata de alguém que não tem o hábito de explorar cenas pesadas. "Agora é que vou sentir como a situação está. Mas restrições sempre limitam a criatividade, sem dúvida", argumenta ela, que também prefere "usar o bom senso na hora de escrever".
Problemas da tarde
Se no horário nobre já é difícil ousar nos temas abordados, que dirá as equipes responsáveis pelas produções que vão ao ar mais cedo. Jorge Fernando, que dirigiu Sete Pecados, às 19h, assume que amenizou várias cenas que não eram necessárias para evitar problemas com a Justiça. "Passamos boa parte do tempo da novela entendendo melhor os novos padrões", lembra.
Autora de Malhação, Patrícia Moretzsohn sabe que não pode avançar nas cenas de romance de seus personagens no folhetim infanto-juvenil. Mas também não acredita que isso pudesse levantar a audiência do programa. "Não preciso explorar o sexo para retratar o universo jovem", explica. E, talvez por conta disso, prefira desenvolver suas histórias para outros debates. "Discutimos assuntos como gravidez na adolescência e paraplegia, que são de extrema importância para o universo jovem", exagera.
Mesmo escrevendo para o horário nobre há 10 anos, Manoel Carlos também prefere conduzir suas tramas para outros caminhos. Mas admite que nem todos aprovam esse comportamento. "Mesmo que algumas pessoas não gostem, sigo fazendo o meu trabalho com responsabilidade social", argumenta, taxativo.
Instantâneas
# Maitê Proença abusou de sua sensualidade nas cenas de Dona Beija, na Manchete, em 1986. Na novela, a personagem aparecia tomando banho, nua, em belas cachoeiras e outros cenários naturais.
# Alessandra Negrini e Cláudia Raia dividiram, em épocas diferentes, o papel de protagonista da minissérie Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados, exibida em 1995 pela Globo. Ambas estrelaram seqüências de nudez total, assim como Mylla Christie, que vivia a filha da personagem-título.
# Cláudia Raia e Alexandre Borges protagonizaram a cena mais provocante da minissérie, quando seus personagens transavam debaixo de chuva.
# Taís Araújo estreou em Xica da Silva, da Manchete, em 1996. Na época, a emissora esperou a atriz fazer 18 anos para tirar a roupa da personagem. "A idéia era mostrar tudo mesmo. Tanto que havia uma campanha que anunciava quantos dias faltavam para eu aparecer pelada", lembra.
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