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Sábado, 28 de junho de 2008, 11h16  Atualizada às 10h55
"Me respeito, não sou arroz de festa", dispara Leandra Leal
 
Mariana Trigo
 
Jorge Rodrigues Jorge/ Carta Z Notícias/TV Press
Leandra Leal interpreta Elzinha em  Ciranda de Pedra
Leandra Leal interpreta Elzinha em Ciranda de Pedra
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Leandra Leal fala baixo, algumas vezes desvia o olhar e não titubeia ao assumir sua timidez. Características surpreendentes para uma atriz que tem se destacado em seus 18 anos de carreira na TV. Principalmente para quem está na pele de Elzinha, uma extravagante personagem com visual inspirado em Marilyn Monroe. Já quando o assunto é sua vida pessoal, a atriz avisa: "Eu me respeito, não sou arroz de festa, não vou a festa para aparecer em revistas. Não quero dar satisfações".

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Sobre Elzinha, sua personagem inquieta, a atriz diz que ela é extremamente sonhadora e ainda convive com o conflito de ser mãe solteira no preconceituoso final da década de 1950.

"Ela tem um tom diferente dos outros personagens da novela. O cabelo muito louro e o jeito sedutor meio romântico me permite os caminhos mais ousados na interpretação. Posso dizer que já é um dos xodós da minha carreira", derrete-se.

A Elzinha é uma personagem que representa o lado glamuroso da década de 1950. É um papel emblemático da trama, que reúne características das pin-ups com inspiração em Marilyn Monroe. Como tem sido compor uma personagem com informações visuais tão precisas?
Ela é muito complexa. Ao mesmo tempo em que é divertida e engraçada, tem vários conflitos dramáticos. Para acertar o tom dos trejeitos, tive de assistir a todos os filmes da Marilyn Monroe. Prestava atenção não só a cada movimento dela, mas no jeito das outras atrizes dos filmes. Essa mulher pin-up era o ponto de partida, porque ela se espelha o tempo inteiro nas divas do cinema americano. Mas ela veio muito pronta, com elementos fortes de figurino e maquiagem, que foram meu pontapé inicial. Isso já me deu armas suficientes para depois encontrar o lado sonhador dela.

Esse lado romântico da personagem é alternado com o drama de ser mãe solteira na década de 50. Mesmo assim, esse papel é sempre contornado pelo humor. Essa dubiedade traz que recursos para a atuação?
Estou aprendendo cada vez mais a brincar com a comédia, que adoro. Fiz papéis engraçados no teatro. Mas, na TV, também tive a Viviane de A Grande Família, por exemplo. Com a Elzinha, esse equilíbrio enriquece muito, traz veracidade. Ela almeja ser aeromoça, mesmo sem ter nenhum preparo. Vive com a cabeça em outro lugar, sonhando com coisas inatingíveis para ela. Essas cenas são alternadas com os cuidados com a filha Lindalva, de 7 anos, que ela teve com uns 16 anos. Tem esse drama de ser mãe numa época em que a mulher seria expulsa da sociedade se descobrissem essa gravidez.

Você emagreceu bastante desde sua última personagem na TV, a Sabrina de Páginas da Vida. Essa mudança de visual foi para a Elzinha?
Me mantenho magra desde o último filme que fiz, Nome Próprio, do Murilo Salles. Estou emagrecendo porque consegui ter mais disciplina em malhar diariamente. Estou mais atenta com o corpo também porque tive uma lesão de cartilagem no joelho e um problema na rótula que me levou a fazer duas cirurgias. A fisioterapia me deu disciplina. Precisava estar curada em 30 dias para uma peça e tive de ter recuperação de atleta. Fiz fisioterapia, musculação e emagreci. Também tenho feito dieta com médicos e com nutricionista. Mudei meu estilo de vida para não prejudicar minha carreira. Meu corpo precisa estar sempre pronto.

Uma mudança estética, com uma silhueta mais definida também não permite um maior leque de personagens?
Não penso nisso. Trabalhei muito para conquistar uma posição confortável na TV. Minha prioridade é sempre fazer o que gosto na TV.

Isso é possível com contrato longo com a Globo? Muitas vezes você não tem de aceitar papéis pelo seu vínculo com a emissora?
Tenho a sorte de fazer coisas bacanas na TV. E não sou o tipo de atriz que faz cinema e teatro para se reciclar. Acho isso uma visão preconceituosa com a TV. Eu me reciclo na TV. Gosto de perceber que, no quinto mês de uma novela, por exemplo, a personagem que faço vira uma entidade, já tem vida própria. Na TV posso me reciclar com a possibilidade de ter oito meses para viver o mesmo personagem de diferentes formas: acordando, falando com alguém, descobrindo que é filho de alguém, se apaixonando, vendo o pai morrer. São diferentes emoções. Sou defensora da televisão. Acho ridículo achar que o cinema é cult e a TV é só comercial. Tem de tudo um pouco. Depende da sua postura com cada trabalho.

Se você se identifica tanto com a TV, por que tem atuações tão bissextas em novelas?
Prefiro que seja assim. Minha relação com a TV não precisa se reciclar, mas respirar. Faço uma novela, fico uns anos fora do ar, depois volto. No meio disso, faço filmes, teatro, mil coisas. Sempre toquei os três veículos ao mesmo tempo. Costumo fazer um filme, depois uma peça, novela, minissérie. Gosto de variar. O Brasil tem muito essa possibilidade. Lá fora os meios de atuação são muito segmentados: ou você é atriz de TV ou de cinema ou de teatro.

Seu primeiro contato com a atuação foi aos oito anos de idade numa pequena participação em Pantanal, onde sua mãe, Ângela Leal, vivia a Maria Bruaca. Foi ali que decidiu ser atriz?
Tudo era uma brincadeira naquela idade. Eu brincava de trabalhar. Depois fui fazer A História de Ana Raio e Zé Trovão e a Globo me chamou para a Ianca em Explode Coração. Eu só tinha 13 anos.

Apesar da Ianca ter feito sucesso na época, seu primeiro papel reconhecido pela crítica foi no longa A Ostra E O Vento, em 1997. Você chegou a ganhar vários prêmios internacionais. O que mudou a partir desse filme?
Foi o grande marco na minha carreira. Ali eu comecei a ser respeitada como atriz. Deixei de ser uma menina que estava começando na TV para ser uma garota que começava bem no cinema e na TV. Naquela época, o panorama do cinema nacional era muito diferente. Havia pouquíssimos filmes. Fui muito feliz nesse trabalho. Achei bom ser atriz a partir dali.

Em sua trajetória, você raramente cita o nome de sua mãe como influência na sua carreira. Por quê?
Somos muito independentes. Mas ela teve muita influência como amiga e atriz. Ela não foi uma mentora, não direcionou minha carreira e nunca segui os passos dela. Raramente faço essa associação porque construí uma carreira independentemente de ser a filha da Ângela. Óbvio que isso pode ter me ajudado, mas sempre vivi o lado positivo dessa relação. Nunca tive de comparar meu trabalho ao dela. Isso foi um ganho. O trabalho é o que há de mais importante na minha vida e tenho uma personalidade muito forte para associá-lo a alguma coisa.

Como assim?
Demorei muito para ter uma imagem de credibilidade como atriz. Sempre direcionei minha carreira com seriedade e não aceito a opinião de terceiros. Meu trabalho é o que me apóia desde criança nos piores momentos da minha vida. Ele me sustenta de todas as formas. Hoje em dia, as pessoas confundem ator com celebridade. Eu não preciso de muito dinheiro nem de fama. Apenas me sustentar e viajar uma vez por ano. Essa honestidade em não me vender por qualquer trabalho me deu uma imagem íntegra. Não vendo produtos que eu não acredito, por exemplo.

Por isso você não faz campanhas publicitárias?
Exatamente. Não faço comercial de algo que não uso, que não gosto. Com isso, consegui ter alguma credibilidade nesse meio. As pessoas sabem que não vendo qualquer coisa. Fiz apenas dois comerciais no início da minha carreira e nunca mais. Mas hoje em dia poderia fazer de coisas que eu acredito e me identifico. Não vou emprestar meu talento como atriz para qualquer produto. Eu me respeito, não sou arroz de festa, não vou a festas para aparecer em revista. Vou apenas à casa dos meus amigos. Vou em festas de gente que eu gosto, que conheço, não para ganhar brinde. Sou reservada. Se eu abrir minha vida, as pessoas vão acompanhar como acompanham novela. Isso é prejudicial para mim como atriz. Não seria um comportamento estratégico. Não gostaria de dar satisfação da minha vida.

Tendência nômade
Leandra Leal se define como uma atriz absolutamente inquieta. Em busca de bagagem de vida e elementos para compor suas personagens, não gosta de criar laços por muito tempo. Depois de ter nascido e crescido na Zona Sul carioca, Leandra mudou-se para São Paulo com o argumento de que precisava se livrar das referências de infância para amadurecer.

Mesmo mantendo duas casas - uma no Rio e outra na capital paulista -, a atriz já pensa em uma nova mudança para outra capital brasileira, ou mesmo para o exterior.

"A experiência de migrar é boa. Todos deveriam fazer isso. Mas, para uma atriz, é um aprendizado necessário", acredita.

A inquietude de Leandra se reflete nas faculdades de Dança e de Artes do Corpo, ambas abandonadas com apenas dois semestres cursados. A atriz prefere fazer cursos e oficinas de teatro e cinema com curta duração. Incansável na busca de aperfeiçoamento na carreira, Leandra não consegue disfarçar uma queda pela atuação no cinema.

Depois de atuar em longas como Cazuza - O Tempo Não Pára e Zuzu Angel, a atriz acaba de protagonizar o filme Bonitinha, Mas Ordinária, de Moacyr Góes, que está em fase de pós-produção.

"Adoro Nelson Rodrigues. Ele é o meu perfil de autor e o maior dramaturgo desse país", derrete-se.

No próximo dia 18 de julho, Leandra também estréia na telona o longa Nome Próprio, de Murilo Salles. Ela vive a protagonista Camila, uma escritora de Brasília que se muda para São Paulo para se desenvolver. Segundo a atriz, qualquer semelhança sua com a personagem é apenas mera coincidência.

Atuação seletiva
Com 18 anos de carreira como atriz na TV, Leandra Leal se diz cada vez mais cautelosa na hora de aceitar interpretar uma personagem. Além de analisar o elenco, a direção e, principalmente o texto da produção, a atriz assume que tem ficado mais exigente com os roteiros.

Apesar de preferir não falar no assunto, uma das maiores decepções de Leandra na TV foi a personagem Sabrina, de Páginas da Vida. Na trama de Manoel Carlos, a estudante se perdeu na história e a atuação de Leandra acabou sendo desperdiçada na trama.

"A Globo sempre me chama para papéis interessantes. Mas procuro me cercar de bons parceiros", desconversa.

Trajetória televisiva
# Pantanal (Manchete, 1990)
# A História de Ana Raio e Zé Trovão (Manchete, 1990)
# Explode Coração (Globo, 1995) - Ianca
# A Indomada (Globo, 1997) - Lúcia Helena jovem
# Pecado Capital (Globo, 1998) - Clarelis
# A Muralha (Globo, 2000) - Beatriz
# O Cravo e a Rosa (Globo, 2000) - Bianca
# Pastores da Noite (Globo, 2002) - Otália
# Sítio do Picapau Amarelo (Globo, 2003) - Guinevere
# Um Só Coração (Globo, 2004) - Úrsula
# Senhora do Destino (Globo, 2004) - Cláudia
# A Grande Família (Globo, 2005) - Viviane
# Páginas da Vida (Globo, 2006) - Sabrina
# Ciranda de Pedra (Globo, 2008) - Elzinha

 

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