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Segunda, 10 de novembro de 2003, 07h00 
"Evoluí como ator", diz Marcos Palmeira
 
Rodrigo Teixeira
 
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Aos cinco anos, Marcos Palmeira já estava em um set de filmagem. Ele estreou em Copacabana Me Aterra, em 1969, dando trabalho para a equipe do longa-metragem, pois o ator mirim insistia em olhar para a câmara. "Pensava que não podiam ver que era eu que estava olhando", diverte-se.

Veja fotos do ator

Hoje aos 40 anos, o ator carioca que vive o badalado produtor de cinema Fernando Amorim de Celebridade ainda sente a tentação de olhar para a câmara. "Às vezes dá vontade sim", confessa Marcos.

O carioca de sorriso sincero jamais imaginou que teria o glamour necessário para ocupar o posto de galã da novela das oito. À vontade em seu amplo apartamento na Zona Sul do Rio de Janeiro, Marcos vibra com o momento que passa na carreira. "Evolui como ator e trilhei o meu caminho de forma natural", acredita.

Filho do produtor e cineasta Zelito Viana e sobrinho de Chico Anysio, Marcos tem uma carreira marcada pelo trânsito entre o cinema, a tevê e o teatro. Atualmente, pode ser visto no filme Dom, de Moacyr Góes, o 27º longa de sua carreira. Também está em cartaz em Niterói, no Rio de Janeiro, com a peça Mais Uma Vez Amor, ao lado de Guta Stresser, e chega à 13ª novela com um personagem que é pai de dois rapazes. "Isso mostra que estou amadurecendo como homem", valoriza. Marcos admite que quando se deparou com os "marmanjões" Bruno Ferrari e Bruno Gagliasso, ficou inseguro se iriam acreditar que seriam seus filhos. "Mas estamos investindo no afeto de pai e filho e não vou me preocupar com isso", garante.

Além de se dividir entre tevê, teatro e cinema, Marcos comanda a fazenda Vale das Palmeiras, em Teresópolis, região serrana do Rio. Os produtos orgânicos da fazenda são oferecidos em estabelecimentos cariocas e devem chegar logo em Portugal. "A fazenda virou um conceito de agricultura viável", empolga-se. Orgulhoso por emprestar seu prestígio como ator para uma outra área, Marcos revela que fazer novelas foi o que lhe deu maior retorno financeiro, mas confessa que é um "rato de set" e que gostaria de só fazer cinema. "Meu próximo papel deve ser o Juscelino Kubitschek", adianta. Confira a seguir a entrevista com o ator:

P - Você acredita que o público percebe a diferença entre o Fernando ser um produtor e não um diretor do cinema?
R - Gera confusão porque nenhum produtor é tão famoso como o Fernando Amorim. Meu pai falou que até acontece de alguém montar uma produtora no exterior para fazer documentários. Mas é difícil virar um Fernando Amorim, porque ele dá até autógrafo nas ruas... Um produtor realizador como ele, que vai ao set palpitar e mexe na estrutura do filme, não é comum Brasil. Mostrar esta possibilidade com o personagem é interessante.

P - Com um pai produtor e diretor, porque você não entrou mais nesta área de produção?
R - Primeiro por uma falta de tempo. Mas também porque vejo o drama do meu pai. Ele está com 65 anos e tudo que tem construiu pelo cinema. Mas é muito pouco pelo tempo de vida e pelas coisas que ele já fez. O meu pai está sempre devendo, no sufoco, no aperto, na dificuldade. Sempre tendo que provar que aquele projeto é realmente muito interessante. Lembro quando começou a pensar no filme "Villa Lobos", ele falou: "Agora vou fazer um filme que adoro e que vai ser mole de conseguir dinheiro". Levou 15 anos. Faria o garotinho e acabei vivendo o Villa Lobos jovem. Tem ainda o Luís Carlos Barreto, que sempre foi colocado como o grande vilão do cinema brasileiro. Mas o que é que o Barreto tem? O cara produziu muitos filmes e tinha de ser ovacionado. Mas só é criticado, chamado de escroto, mafioso... O produtor de cinema no Brasil é sempre visto desta forma.

P - O Fernando deu uma lição de moral na Maria Clara dizendo que ela não gostava de 'paparazzi' mas chamava a imprensa para suas festas. Existe este jogo duplo no meio artístico?
R - Tem sim. Conheço atores, pessoas que reclamam dos fotógrafos, mas se não tiver sentem a maior falta. A novela fala deste tipo de vaidade. A pessoa que não quer aparecer, mas liga: "Estou indo no show com a Gisele Bündchen". Soube de histórias assim e já desconfiei de sair com gente que fez isso. Uma vez, cheguei num show com uma menina e tinha um 'paparazzo'. Ninguém sabia que eu iria e fiquei com a pulga atrás da orelha. Tenho certeza quase absoluta que rolou um telefonema autopromocional...

P - Você trabalhou com vários autores e diretores. Foi uma maneira de fugir das panelas?
R - Foi inconsciente. O que me guiou foram os convites. Nunca vislumbrei ser o galã da novela das oito. Sempre quis me exercitar como ator. Hoje ser o galã da novela das oito mostra que consegui trilhar este caminho de forma natural. Não que este seja o meu final como ator, mas no momento estou como o galã da novela das oito. Como vi o Fagundes há 15 anos, quando fiz Vale Tudo. Mas trabalho com quem tenho afinidade artística. Com o Luiz Fernando Carvalho, Wolf Maya, Dennis Carvalho... Não me fechar em uma turma me deu uma certa liberdade.

P - Você gostaria de fazer só cinema?
R - Gostaria de ser só um ator de cinema. Fazer dois filmes por ano, trabalhar oito meses, e ter quatro de folga...

P - A sua cara de bom moço dificultou ter ganhado mais vilões na carreira?
R - Acho que sim. Sou pouco agressivo e até estou trabalhando isso na terapia. As pessoas também têm dificuldade em me ver fazendo o mal. Na verdade, quando comecei era o malandro carioca. Fui rotulado após filmes como Dedé Mamata, Barrela, Um Trem Para as Estrelas... Depois comecei a viver caipiras e falaram que só sabia fazer este tipo de papel. Mas de repente virei o galã. Confesso que apesar de ter uma relação sempre boa com as mulheres, nunca achei que tivesse glamour nenhum. Jamais me preocupei em construir uma determinada imagem e nunca deixei de fazer um personagem por achar que iria ficar rotulado. Mas realmente está faltando um vilãozão na minha galeria...

P - Falando de imagem, como foi estrear na tevê como um efeminado?
R - Fazia só ponta no Tevê Que Se Vê, em 1980, do Chico. Um dia vi o Stepan Nercessian procurando o ator que iria fazer a bicha do quadro. O cara não aparecia. Pensei: "É a minha chance!". Acabei fazendo o gay e no dia seguinte me ligaram: "Você tem coragem de fechar um ano de contrato para fazer uma bicha?". Foi ali que tudo começou, pois só trabalhava por cachê. Fiquei um ano fazendo a bichinha com o Painho. Foi minha grande escola. Aliás, deveria existir uma escola de humor Chico Anysio. Ele é um gênio.

P - Você fez peças com ex-namoradas atrizes. Não teme ser tachado de oportunista?
R - Na peça com a Luana, Mais Uma Vez Amor, que agora faço com a Guta Stresser, me apaixonei por ela ensaiando. Nunca tinha visto a Luana. Então não foi um projeto montado para ganhar dinheiro. A gente se apaixonou durante o espetáculo. Foi uma loucura, misturou tudo. A Luana é uma figura maravilhosa, mas bélica. Já a peça que fiz com a Ana Paula Arósio, "Diário Secreto de Adão e Eva", teve mesmo um pouco de oportunismo. Até pela qualidade do próprio espetáculo.

P - Onde acaba o público e começa o privado na vida de um ator?
R - Depois que se tem um reconhecimento público, é difícil não estar sendo visto quando você vai para a rua. As pessoas tem curiosidade quando você vai em um lugar. Lidar com isso é difícil. É preciso preservar um lado de humildade, de reconhecer que o sucesso é da novela e você faz parte do conjunto. Creditar a você o sucesso é perigoso. A vaidade pode te pegar e virar uma armadilha. Já o privado é o que faço em casa. Não me sinto obrigado a dar opinião sobre tudo e só me exponho quando estou trabalhando.

P - Você iria para uma dessas "ilhas de Caras" da vida?
R - Provavelmente não. Porque se vou para a Ilha de Caras, se chamo a "Caras" para ir no meu casamento, a "Quem" para fotografar o meu aniversário, dou uma coletiva para o "TV Fama", vou abrir espaço para falarem da minha vida. Se começo a expor a minha vida pessoal, ela passa a ser uma ficção. Vira história de novela. E dizer que é o leitor que só quer saber das fofocas é menosprezar o público. Está na hora da mídia também se questionar eticamente. O que é venda de matéria e notícia. É preciso respeitar o leitor e considerar ele como um ser inteligente, interessado em coisas novas. E não só no lixo, porque muitos só oferecem o lixo ao público, que não é burro e sabe que está consumindo lixo. É como comer um sanduíche do McDonalds. Você sabe que naquele dia fez um rango junk.

P - Você já se aborreceu realmente com os fotógrafos?
R - Já. Porque sou um cara puro. Se estou com uma mulher nova e vou num restaurante, o local é público. O fotógrafo tem o direito de me fotografar com uma teleobjetiva, me flagrar. Mas não conte com a minha conivência. Quando tem aquela maneira ostensiva de tirar a foto, me sinto no direito de negar, porque o cara está se relacionando de maneira grossa com o trabalho dele. O problema é que, se poso, falam que no fundo queria ser fotografado. E se não poso, falam que sou grosso. E ator se relaciona sempre com esta situação. A melhor saída é não dar a menor importância.

Trilha artística
Marcos Palmeira aponta com certa dificuldade os dois trabalhos televisivos que considera o ponto alto e baixo de sua carreira. O ator acredita que Renascer, em que viveu o peão João Pedro, foi a novela que impulsionou a sua trajetória na tevê. "Depois de Renascer é que consegui me firmar na profissão de alguma maneira", pondera Marcos sobre a novela de Benedito Ruy Barbosa dirigida por Luiz Fernando Carvalho em 1993 na Globo.

Salsa e Merengue, de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, é a produção que ele menos gostou de sua performance. Ele interpretou Valentim, um conquistador que descobre que é filho de uma família endinheirada e ainda tem de doar a medula para um irmão que não conhecia. "Não acertei muito a mão nesta novela porque o personagem deixou de ser o que era. Mas sou muito crítico e geralmente não gosto do que fiz", afirma.

Com 32 filmes entre longas e curtas-metragens, Marcos tem orgulho do seu vasto currículo no cinema. O ator garante que em breve pretende se aventurar na direção de filmes. "Ando muito palpiteiro e com uma bagagem que está aflorando. Estou próximo de dirigir um curta", avisa.

O seu mais recente trabalho na área foi o filme Dom, de Moacyr Góes, e o próximo personagem nas telas deve ser o ex-presidente Juscelino Kubitschek. O ator, aliás, já viveu o maestro Heitor Vila Lobos em filme homônimo, D. Pedro I em Carlota Joaquina e o médico Oswaldo Cruz em Oswaldo Cruz - O Médico do Brasil. "Os personagens que retratam pessoas conhecidos são mais difíceis", garante. Marcos aponta, no entanto, o filme Anahy de Las Misiones, em que fez um típico gaúcho da fronteira, como um dos seus preferidos. "Talvez seja o trabalho mais maduro que fiz", pondera.

Trajetória televisiva:
# "Mandala", de 1987 - Creonte, pequena participação na primeira fase da novela.
# "Vale Tudo", de 1988 - Mário Sérgio, jornalista.
# "Desejo", de 1990 - Solon.
# "Pantanal", de 1990 - Tadeu, peão que é filho do protagonista José Leôncio.
# "Amazônia", de 1992 - Caio, filho de um poderoso comerciante de borracha.
# "Renascer", de 1993 - João Pedro, filho caçula rejeitado pelo protagonista fazendeiro José Inocêncio.
# "Memorial de Maria Moura", de 1993 - Cirino, mau-caráter por quem Maria Moura se apaixona.
# "Irmãos Coragem", de 1995 - João Coragem, garimpeiro que acha um diamante.
# "Salsa e Merengue", de 1997 - Valentim, um conquistador.
# "Torre de Babel", de 1998 - Alexandre Toledo, advogado.
# "Andando nas Nuvens", 1999 - Chico Motta, repórter.
# "Porto dos Milagres", de 2001 - Guma, pescador.
# "Esperança", de 2003 - Zequinha, violeiro caipira.

No ritmo da natureza
Marcos Palmeira tem orgulho em utilizar a própria fama para desenvolver o projeto que considera o mais importante da sua vida. É a fazenda Vale das Palmeiras, que ele comanda há sete anos em Teresópolis, região serrana do Rio. O local tem 200 hectares, 30 funcionários, produz mensalmente 10 toneladas de alimentos orgânicos e 200 litros de leite por dia e já tem até um site na internet - www.valedaspalmeiras.com.br.

A fazenda não utiliza nenhum tipo de pesticida, fungicida ou hormônio na produção de legumes e verduras, como agrião, brócolis, espinafre, beterraba e cenoura. "Claro que o fato de ser famoso ajuda a tornar os produtos da fazenda mais rapidamente conhecidos. Mas não adiantaria nada se os próprios produtos não tivessem uma excelente qualidade", argumenta Marcos.

Com planos para fazer as primeiras exportações para Portugal, o ator está empenhado em levar o modelo de sua fazenda para outros estados do país. Um dos projetos que a Vale das Palmeiras está participando é da revitalização da região semiárida do Xingó, entre Bahia, Alagoas e Sergipe. "Também já estamos em contato com agricultores da região Sul", adianta. Além da agricultura orgânica, o ator também trata todos os seus animais de forma natural. "Eles são criados soltos, sem uso de antibióticos e são tratados com homeopatia", ressalta. A ligação de Marcos com o campo vem desde a infância e o faz não esquecer de seu lado rural. "Passei a infância com meu avô na fazenda no interior da Bahia, em Itororó", explica.

Aliás, Marcos já fez aventuras bem distantes da cidade grande. Em 1979, por exemplo, morou dois meses em uma aldeia Xavante no Mato Grosso. O ator se sentiu incentivado a passar um tempo com os índios após a produtora de seu pai ter feito o documentário "Terra dos Índios". "Ele vieram ao Rio para visitar meu pai e decidi que queria conhecer a cultura deles", lembra. Marcos adora ter sua imagem vinculada a preservação da natureza e a produção de alimentos sem agrotóxicos. E deixa escapar um ligeiro constrangimento por aparecer em propaganda de cerveja. O ator garante que só topa este tipo de publicidade porque tem a ver com ele, que se diz um bebedor de cerveja como qualquer "peladeiro". "Juntei o útil ao agradável. Ganhei um dinheiro vendendo um produto que eu mesmo consumo", minimiza o ator.
 

TV Press
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