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Domingo, 30 de setembro de 2007, 15h19 
Realismo fantástico na TV não sai de moda
 
Mariana Trigo
 
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Personagens que voam, são mais velozes que a luz, literalmente explodem de tanto comer ou viram lobisomem nas noites de lua cheia. O realismo fantástico na teledramaturgia não sai de moda. Desde Saramandaia, de Dias Gomes, há 31 anos, o estilo de contar histórias que causam estranheza esteve presente em várias novelas. Agora se destaca em Caminhos do Coração, de Tiago Santiago.

Só que nesta trama, os personagens têm uma característica mais "high-tech" do que românticas e ingênuas figuras como a Dona Redonda, vivida por Wilza Carla, que em Saramandaia, explodiu de tanto comer. Na trama de Tiago, o sci-fi é marcante desde a concepção dos seres modificados geneticamente. A história acrescenta ao realismo mágico generosas doses de ficção científica.

"Me interesso por habilidades especiais, por seres únicos. Isso faz sucesso nas novelas e Aguinaldo Silva fez uma carreira gloriosa dessa forma", justifica Tiago.

Em Caminhos do Coração, Tiago utiliza recursos de um personagem alado, criado anteriormente. É o caso da pequena Angela, de Júlia Magessi, a menina mutante com asas. Em Saramandaia, Juca de Oliveira viveu o João Gibão, um papel alado na trama de Dias Gomes, autor que Aguinaldo Silva considera seu mestre.

Depois de criar diversos papéis surrealistas, Aguinaldo, que assina Duas Caras, assegura que cansou deste estilo. Mas se orgulha de ter dado vida a personagens como o Raimundo Flamel, de Edson Celulari em Fera Ferida. O cientista transformava ossos humanos em ouro pelo conhecimento de alquimia. Ou mesmo o Motinha, de José de Abreu, em A Indomada, que foi parar no Japão após cair num buraco. Isso sem falar no misterioso Sérgio Cabeleira de Osmar Prado, que se sentia atraído pela lua em Pedra Sobre Pedra e terminou a história voando em direção à lua cheia.

"Era muito interessante convencer as pessoas de que aquilo poderia ser real", lembra Osmar. "Para quê vou colocar uma vaca voando hoje em dia, se as pessoas levam tiro nas ruas? Isso que é realismo fantástico! Eu gostava muito desses personagens mágicos. Hoje, meu barato é mostrar a realidade", provoca Aguinaldo.

Para Antônio Calmon, a realidade foi vampiresca em duas de suas tramas que recorriam ao realismo mágico. Em Vamp, exibida na Globo em 1991, e em O Beijo do Vampiro, que foi ao ar em 2002, a figura lendária do Conde Drácula foi retratada de diferentes formas. Enquanto a primeira trama foi considerada "cult" por mostrar o cotidiano dos sanguessugas, a segunda enveredou pela comédia e pegou carona no avanço tecnológico de digitalização de imagem.

Foi possível, com o uso de softwares, mostrar os dentes ficando pontiagudos e os olhos dos vampiros mudando de cor. "Eu, que adoro ser camaleônica, adorei o resultado da vampira Mina. O barato para o ator é viver esses tipos completamente diferentes", ressalta Cláudia Raia, sobre seu papel em O Beijo do Vampiro.

Calmon escreveu ainda Olho no Olho, em 1993, na Globo, onde usava efeitos especiais para mostrar a paranormalidade de alguns personagens. Como Aleph, de Felipe Folgosi, que não tinha domínio de seus estranhos poderes. Atualmente na pele do detetive Beto na trama dos mutantes da Record, Felipe ainda é lembrado como o personagem criado por Calmon. "Essa novela foi muito ousada para a época e o máximo de recursos que se tinha era o 'chroma key'. Agora, na Record, dizem que se der algum problema com os mutantes, é só chamar o Aleph", brinca Felipe.

Na contramão do avançado apoio que os diretores possuem atualmente, com diversos programas de computador que facilitam transformações visuais dos personagens "surrealistas", Ary Fontoura lembra-se de como os efeitos especiais eram artesanais. Em Saramandaia, novela que reuniu uma grande quantidade de seres fantásticos, Ary interpretou o esquisito Aristóbulo, que virava lobisomem. Ele dormia por anos a fio e, em seus sonhos, encontrava-se com figuras históricas, como Tiradentes ou D. Pedro I, por exemplo.

"Foi a primeira vez que o público teve contato com o realismo fantástico. Mas tudo era artesanal. Eu passava quatro, cinco horas sendo maquiado como lobisomem. Hoje, em cinco minutos de computação gráfica, tudo já estaria resolvido", constata o ator.

Estranha sedução
O realismo fantástico recheava quase todas as tramas de Dias Gomes. A mais curta foi a novela das oito O Fim do Mundo, escrita para ser uma minissérie e que foi ao ar em 1996, em apenas 35 capítulos. Dirigida por Paulo Ubiratan, a trama contava a história de Joãozinho de Dagmar, um excêntrico paranormal que tinha poderes de entortar garfos e exalar diferentes perfumes.

Outro personagem com poderes paranormais no realismo mágico foi Susana Vieira como Rubra Rosa, que quando excitada ficava literalmente em brasa em Fera Ferida. A personagem de Aguinaldo Silva foi inspirada em Marcina, vivida por Sônia Braga em Saramandaia. Sedutora e maliciosa, ela queimava tudo o que encostava e ardia em febre. "Foi um dos marcos da minha carreira", lembra Sônia.

Já em Da Cor do Pecado, de João Emanuel Carneiro, os personagens da família Sardinha, liderados pela viúva Edilásia, de Rosi Campos, se transformavam quando ingeriam uma misteriosa sopa que lhes dava força e um curioso poder de sedução. Fábio Júnior, na pele do fotógrafo Jorge Tadeu em Pedra Sobre Pedra também foi outro personagem com estranhos poderes. O fotógrafo, depois de morto, voltada como fantasma para enlouquecer as mulheres que comiam a tal "flor de Jorge Tadeu" ¿ que nascia de uma árvore que ele costuma "regar" diariamente.

"O realismo fantástico combinava mais com essa época, com uma aura de romantismo", acredita Aguinaldo. "Acho que o grande chamariz de 'Caminhos do Coração' está no realismo mágico dos mutantes. Esse é um estilo diferencial em qualquer história", valoriza Alexandre Avancini, diretor da novela da Record.

Instantâneas
# Em Agora É Que São Elas, de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, existia um personagem chamado Curupira, mas que não aparecia. Era um garoto com o corpo verde, cabeleira vermelha e pés voltados para trás. Típico dos personagens do folclore brasileiro.

# Em Tieta, de Aguinaldo Silva, o realismo fantástico foi representado através da misteriosa mulher de branco, uma personagem que atacava os homens da fictícia cidadezinha Santana do Agreste. No final, soube-se, ela era bem real. Tratava-se de Laura, papel de Cláudia Alencar.

# Em A Indomada, o personagem Cadeirudo, que abordava as mulheres da fictícia Greenville, era tipicamente de realismo mágico. No final da história, foi revelada a identidade do misterioso: era uma mulher, a personagem Lurdes Maria, vivida por Sônia de Paula.
 

TV Press
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