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Sábado, 4 de agosto de 2007, 10h31 
"Não sou banida da TV por causa das rugas", diz Irene Ravache
 
Gabriela Germano
 
Luiza Dantas/TV Press
Irene Ravache celebra a possibilidade de não ser banida da TV com os sinais da idade
Irene Ravache celebra a possibilidade de não ser banida da TV com os sinais da idade
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Recentemente, Irene Ravache foi surpreendida com a frase de uma senhora que cruzou com ela na rua: "sua máscara na novela está perfeita". Sem rodeios, a atriz que interpreta Loreta em Eterna Magia respondeu que não usava máscaras, era o rosto dela, natural, que aparecia na novela.

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O que a atriz mais comemora com o atual trabalho, no entanto, é a possibilidade de manter um lugar ao sol na TV mesmo com o passar dos anos e com as marcas que a idade traz. "Sou agradecida à Loreta por poder mostrar que, apesar de estar mais velha, não sou banida por causa de minhas rugas", diz.

De uma mulher amarga, a personagem de uns tempos para cá passa por uma transformação. Já usa uma leve maquiagem, mostra-se mais sensível e atrai, inclusive, olhares de alguns homens.

Completamente apaixonada por teatro, é a primeira vez que Irene emenda três trabalhos na televisão. Antes da novela das seis foi a grega Katina, em Belíssima e interpretou Beatriz na minissérie Amazônia. Deu "sorte" porque uma figura é bem diferente da outra. "Não há muito como fugir dos papéis de mãe ou avó. Cabe a mim fazê-los diferentes. E aí que entra minha contribuição pessoal", defende. Leia a entrevista com a atriz:

Você já declarou ser uma atriz de teatro que eventualmente faz televisão. Eterna Magia é seu terceiro trabalho seguido na Globo. A TV te fisgou dessa vez?
Só agora estou conseguindo fazer um trabalho ligado ao outro na TV. Assinei contrato por três anos com a Globo. Ainda estava em Belíssima quando soube que a Glória havia me escalado para Amazônia. Nunca tinha trabalhado com ela e não podia deixar de fazer. Fiquei comprometida com a minissérie e aí o Ulisses Cruz me chamou. Nós estivemos juntos em uma oportunidade anterior e nos demos muito bem. Às vezes você chega com a cena de um jeito, ele propõe outra coisa e você não hesita em seguir essa proposta que é melhor. Por isso, eu também não pude recusar. São oportunidades que a gente não pode abrir mão. Como dizem Caetano e Gil na música Divino Maravilhoso, "é preciso estar atento e forte". Depois que Eterna Magia acabar acho que vou tirar férias da TV, até porque as pessoas precisam descansar da minha imagem. Se bem que um trabalho foi bem diferente do outro.

A oportunidade de encarnar figuras diferentes é a causa dessa lua-de-mel com a TV?
Existe o fator sorte aí. Não posso fugir muito de ser mãe ou avó. Mas essas três mulheres que vivi em pouco tempo na TV, Katina, Beatriz e Loreta, são completamente diferentes entre si. Outro dia uma senhora me disse: "você não pode ter envelhecido tanto da Beatriz para cá". Respondi que podia, sim, porque o trabalho de atriz permite isso. No caso dessa novela, acontecem manifestações fantásticas. Já comentaram sobre a máscara que eu usava no início. Mas eu não usava máscara, era o meu rosto mesmo. A questão de não usar maquiagem, as olheiras, não imaginava que isso causasse tantas reações. Algumas mulheres ficam incomodadas, colegas dizem que não teriam a mesma coragem, e outras acham uma maravilha.

Aparecer com a "cara lavada" em uma novela não mexeu com a sua vaidade?
Tive uma resposta inesperada dos homens. Muitos disseram que eu estava bonita na novela. O primeiro foi o meu marido. É claro que ele é suspeito, mas depois de 36 anos de casamento é bom ouvir isso dele. E é óbvio que não é porque eu, Irene, estou bela. Mas porque as cenas são bonitas, o que eu passo na história é bonito. Os homens não me diziam que eu estava linda quando fiz a Katina de Belíssima. Mas é porque lá era uma beleza mais ameaçadora. Sou muito agradecida a essa personagem Loreta por poder mostrar que posso estar mais velha, mostrando as minhas rugas, mas não vou ser banida por isso.

Você discorda de outras atrizes que dizem sofrer com a mesmice dos papéis para mulheres mais maduras?
Os papéis são geralmente os mesmos, de mãe ou avó. Mas cabe a você fazê-los diferentes. Aí é que entra sua contribuição pessoal. Às vezes penso em dar um retoque no meu rosto, mas antes preciso saber que personagem vou fazer. Se for uma executiva mais chique, vou ter de me adequar. Mas a plástica só deixa você mais esticada, não deixa você mais jovem. E o problema de ficar esticada é que para alguns personagens não funciona. Se vejo uma tragédia de Shakespeare com um ator esticado não acredito. Em 1990, fiz uma plástica no pescoço. Já estou precisando de novo. Mas no olho não mexo. Porque quando você começa a mexer muito, corre o risco de parecer um quadro do Picasso.

Mas agora em Eterna Magia, sua personagem já se cuida mais, há uma leve maquiagem e ela deixa de ser amarga. Como você avalia essa transformação que Loreta passou?
Dois acontecimentos marcaram essa mudança de vida da personagem. Enquanto ela tinha o filho por perto, vivia na expectativa de que ele iria embora em algum momento, abandonando-a como fez o marido. Quando ele realmente vai embora, isso deixa de ser uma expectativa e se transforma em realidade. Então ela tem de começar a olhar mais para si. Começa a fazer doces para sobreviver, é obrigada a trabalhar. E em situações-limite a gente sabe que o trabalho levanta uma pessoa. Ela tem de tomar banho e se arrumar para sair de casa. Além disso houve a entrada da personagem Joice, uma jovem desabusada que não levava a sério aquela mulher com a cara amarrada. Ela fala coisas que desarmam a Loreta.

A personagem também começa a atrair os olhos dos homens e se sentir atraída...
Mas o que eu a Elizabeth Jhin achamos legal é que isso seja a conseqüência e não a causa. A Loreta não vai se arrumar porque apareceu um homem. Queremos mostrar para as mulheres que não é preciso ter uma relação amorosa para prestar atenção na sua auto-estima. Quando começa a se arrumar um pouquinho mais, o Joaquim pergunta se ela vai sair. Não! Ela se arruma porque tem vontade de se arrumar.

Como foi, exatamente, o trabalho de composição da Loreta?
Meu trabalho é de investigar a alma dos meus personagens. Ser uma caçadora de emoções é o que me agrada. Não sou muito de fazer composição física, dificilmente recorro à peruca. Vou mais pelo interior. Se empresto meu corpo e minha voz ao personagem, empresto meus sentimentos também. Trabalhar com a magia da Elizabeth e ver como ela é elaborada dentro de mim é extremamente prazeroso. Não diferencio TV, teatro ou cinema. Dedico-me da mesma maneira a todos. Não é porque em televisão o volume de texto é maior que você tem de se contentar com a primeira leitura. Além disso, nesse caso tenho um parceiro maravilhoso que é o Osmar Prado. Ele também é um estudioso e sempre tenho a certeza de que ele vai trazer uma colaboração e eu, outra.

As mudanças de sua personagem já estavam previstas. A novela, no entanto, passou por muitas modificações devido a problema de audiência. Como você, envolvida nesse projeto, enxerga as alterações feitas no rumo da história?
Quando as modificações acontecem de uma maneira gradual e natural, acho que são benéficas. No teatro, quando você revê um espetáculo depois de seis meses, ele é outro. Não falo de mudanças oportunistas. Mas se a gente vê que o público riu mais em determinado momento, vai calcar mais ali. Às vezes, no entanto, o que me parece meio precipitado é que as pessoas ainda não se acostumaram com o fato de que leva um tempo para o público se apaixonar, gostar ou não do que é apresentado. E também vale insistir no diferente, experimentar. A Globo tem uma produção respeitável, sabe fazer. Se a emissora planta laranjas, vai colher laranjas. Por mais que às vezes a coisa pareça abacaxi, é só dar um tempinho que volta a ser laranja. A Globo tem cacife para fazer uma "Pedra do Reino", que o espectador nem entende o que está vendo. Não sei porque desconfiam tanto das laranjas que plantam. E olha que eu já participei de projetos pioneiros como "Beto Rockfeller" e novelas da Tupi.

Feitiço irreversível
Se na novela as magias são feitas e desfeitas, na realidade há quem pareça eternamente enfeitiçada por alguma paixão. No caso de Irene Ravache, essa perdição é pelo teatro. Seja como atriz ou produtora, desde que iniciou a carreira artística, nos anos 60, ela nunca mais se distanciou dos palcos.

"Atualmente, parei meu trabalho como atriz de teatro, mas não como mulher de teatro. Produzi As Turca, porque não dá para atuar na TV e nos palcos ao mesmo tempo", conta, ao justificar que a dificuldade não estaria no volume de trabalho, mas no estresse de horários e de deslocamentos que o profissional tem de enfrentar para conciliar tudo.

A crise do teatro de que tantos artistas se queixam não abala Irene. Persistente, ela defende que não há dificuldade capaz de brecar um projeto teatral porque atores e produtores são muito teimosos.

"Ouço essa história de crise há anos. Mas o teatro é incontrolável. A gente insiste, faz e bota o bloco na rua", diz. Depois de Eterna Magia, Irene tem planos de trabalhar com Jô Soares ou com textos da jornalista Marta Góes. Também pretende produzir um texto de Andréa Beltrão para o ator Miguel Magno. É incansável.

Coração na ponte
Moradora da cidade de São Paulo desde 1967, Irene Ravache faz muita gente se esquecer que ela é carioca. Ela se divide de maneira especial entre as duas cidades e não é só no tempo de permanência. Tem um filho paulista e outro carioca. Nasceu no Rio de Janeiro mas tem título de cidadã paulistana. Mas a indecisão entre os dois destinos atualmente tem um outro motivo: os netos.

Maria Luisa, 6 anos, está em uma cidade e Eduardo, de 13, em outra. É uma dúvida cruel para a vovó coruja. "Eles são os dois motivos mais importantes para eu estar em um lugar ou outro. Acho São Paulo espetacular e o Rio lindo. Não me vejo mais morando no Rio de Janeiro, mas faço questão de dizer que sou carioca", enfatiza.

Trajetória Televisiva
# Paixão de Outono (Globo, 1965)
# Eu Compro Esta Mulher (Globo, 1966)
# O Grande Segredo (Excelsior, 1967) - Zuleika
# Sublime Amor (Excelsior, 1967) - Gina
# Beto Rockfeller (Tupi, 1968) - Neide
# Super Plá (Tupi, 1969) - Majô Prado
# Simplesmente Maria (Tupi, 1970) - Inez
# Na Idade do Lobo (Tupi, 1972) - Cláudia
# A Volta de Beto Rockfeller (Tupi, 1973) - Neide
# O Machão (Tupi, 1974) - Dinorá
# A Viagem (Tupi, 1975) - Estela
# O Profeta (Tupi, 1977) - Tereza
# Cara a Cara (Bandeirantes, 1979) - Zeni
# Sol de Verão (Globo, 1982) - Rachel
# Guerra dos Sexos (Globo, 1983) - Bárbara
# Champagne (Globo, 1983) - Antonia Regina
# Sassaricando (Globo, 1987) - Eleonora
# Brasileiras e Brasileiros (SBT, 1990)
# Éramos Seis (SBT, 1994) - Lola
# Sangue do Meu Sangue (SBT, 1995) - Princesa Isabel
# Razão de Viver (SBT, 1996) - Luzia
# Suave Veneno (Globo, 1999) - Eleonor
# Marcas da Paixão (Record, 2000) - Dete
# A Casa das Sete Mulheres (Globo, 2003) - Madalena
# Belíssima (Globo, 2005) - Katina
# Amazônia -de Galvez a Chico Mendes (Globo, 2007) - Beatriz
# Eterna Magia (Globo, 2007) - Loreta

 

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