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Segunda, 11 de junho de 2007, 12h42 
'Família Soprano' termina nos EUA como uma piada
 
Alessandra Stanley
 
The New York Times
Episódio final do seriado  Família Soprano  é exibido nos EUA
Episódio final do seriado Família Soprano é exibido nos EUA
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ALERTA SPOILERS: ESSE TEXTO PODE REVELAR FATOS IMPORTANTES DA TRAMA.

O abrupto episódio de encerramento, exibido no domingo à noite, foi uma espécie de brincadeira, uma peça maliciosa pregada aos telespectadores que agonizavam para saber como terminaria uma das séries mais hipnóticas da história da televisão. O suspense da cena final, à mesa de jantar, foi quase cruel. E certamente aquela última canção Don't Stop Believing, da banda Journey- só podia ser piada.

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Depois de oito anos e de antecipação tão frenética, qualquer final teria sido frustrante. Os telespectadores estão condicionados a que as coisas cheguem a uma solução, feliz ou triste, e por isso foi na verdade adequado que essa série da HBO, que nunca definiu seu território precisamente como comédia ou tragédia, desafiasse as expectativas até o último momento. Ao menos quanto a isso, Família Soprano se encerrou com uma conclusão perfeitamente imperfeita.

O final foi um lembrete daquilo que tornou a série de David Chase sobre mafiosos de Nova Jersey um programa tão único na histórico da televisão. Família Soprano foi sempre o mais realista e incomum dos dramas familiares televisivos.

Houve muitos filmes excelentes sobre a máfia, e uma trilogia lendária, mas os fãs tinham de procurar nos livros para encontrar um retrato comparável da complexidade e das inconsistências da vida de família norte-americana. Ocasionalmente, era até difícil encontrar elogios suficientes a saga da família mafiosa foi comparada a John Cheever, Dickens, Shakespeare; os roteiros são analisados como se fossem manuscritos bíblicos. Mas o traço que sempre a distinguiu foi o fato de que Família Soprano era muitas coisas diferentes a um só tempo.

O declínio e queda dos Sopranos -Tony, Carmela e os demais- servia como parábola ao declínio dos Estados Unidos, mas ao mesmo tempo, semana após semana, a série era também um típico filme de bandidos, com muito sexo, violência crua e, acima de tudo, grande senso de humor.

No episódio final, Meadow Soprano, tentando explicar ao pai por que deseja ser advogada especializada em direitos civis, diz, com a maior seriedade: "O Estado tem o direito de esmagar o indivíduo?" Tony responde: "Que Estado? Nova Jersey?"

E, como o encerramento demonstrou ainda uma vez, um casamento problemático sobrevive, ainda que cambaleie; as feridas dos devastadores conflitos entre gerações se cicatrizam, mas nunca se curam de todo; e o poder é transitório. Algumas coisas perduram, mas nada é permanente na cultura norte-americana, ou na família Soprano.

Tony sobrevive e continua nos negócios, sua mulher e filhos estão seguros, mas ele retoma suas atividades criminais cercado por sombras ainda mais escuras de desastre iminente: um indiciamento e provavelmente um julgamento.

Desde o começo da temporada final, houve múltiplas indicações, algumas delas deliberadamente enganosas, de conclusões diferentes. Não seria difícil suspeitar que Tony, acuado, decidisse colaborar com as autoridades e terminasse no programa de proteção a testemunhas. E parecia ser esse o destino ao qual ele se encaminhava ao procurar o agente Harris, do FBI, de quem ele tanto zombou ao longo dos anos, oferecendo informações sobre dois conhecidos muçulmanos e perguntando: "Isso pode me valer boa vontade no futuro?"

Em breve, tanto Tony quanto o FBI descobrem que Phil Leotardo, seu rival na máfia, pretende eliminar os Soprano e matar Tony. No episódio de domingo, Tony pede uma reunião secreta com Harris, e sua ajuda para localizar Phil. O agente do FBI rejeita o pedido, mas mais tarde revela ao mafioso o paradeiro de seu rival, que descobriu em conversa de cama depois de uma noite com uma colega do FBI.

E essa violação de ética pelo FBI resulta em uma das mais revoltantes cenas de morte da história da televisão. Phil, que sai do utilitário que está dirigindo e no qual sua mulher e seus dois netos estão acomodados, termina morto a tiros por um assassino de aluguel. A mulher dele, horrorizada, deixa o carro, que está ligado; o veículo avança, com os bebês ainda presos às suas cadeirinhas, e parece que tudo terminará com uma cena trágica, a inocência das crianças destruída, expondo os terríveis danos colaterais do crime organizado.

Mas a cena ganha tons de comédia doentia quanto o carro pára ao atropelar Leotardo e esmagar sua cabeça com um ruído doentio que faz um espectador vomitar.

O problemático filho de Tony, A. J., parecia destinado ao desastre durante toda a temporada, mas termina como começou: um menino mimado, materialista e sem rumo. Tony até mesmo faz as pazes com seu tio Júnior, tão senil que nem mesmo reconhece o sobrinho ou se recorda de que quase o matou com um tiro.

Mas a briga entre Tony e sua psicanalista, a Dra. Melfi - tão repentina que parecia arranjada de improviso nas últimas horas de gravação, só para propiciar uma reconciliação dramática no último minuto- não tem final feliz. Tony começa a consultar a nova psiquiatra de A. J., uma mulher atraente, e talvez por reflexo começa a contar sua história de família, a mãe que não o amava, a infância sofrida. Carmela, ao lado, o olha feio o tempo todo.

Mas a piada final de Chase foi com os espectadores, não os personagens. Tony, Carmela e A. J. estão jantando juntos, um momento raro de harmonia final que parece implorar para ser destruído. Um homem de aparência suspeita entra e os olha do balcão, em cena que ecoa O Poderoso Chefão, e em seguida se dirige ao banheiro. Do lado de fora, Meadow, atrasada, está tentando estacionar, e começa a caminhar na direção do restaurante.

Nada acontece, rolam os créditos. Chase queria encerrar sua história sem melodrama ou reviravoltas exageradas. Ele com certeza conseguiu.

Tradução: Paulo Migliacci ME
 

The New York Times
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