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Amazônia
Domingo, 18 de fevereiro de 2007, 16h41  Atualizada às 16h40
José Wilker esbanja irreverência no papel de Galvez em Amazônia
 
Mariana Trigo
 
João Miguel Jr./TV Globo/Divulgação
José Wilker interpreta Galvez em  Amazônia
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José Wilker é um moleque. Nem os 60 anos que completará em agosto mudam o jeito brincalhão e a alegria de viver. Debochado, costuma carregar para o Projac um coelho de pelúcia de quase um metro e meio de altura.

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Confortável em seu universo lúdico, o ator não esquece de colocar o cinto de segurança em Coelhão, com quem também repassa os textos de suas cenas em sua aconchegante casa do Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio. De lá, Wilker e Coelhão atravessam a cidade até o Projac, na Zona Oeste. Ao chegar nos estúdios, muitas vezes Coelhão assiste às cenas de Wilker. "Ele usa o meu primeiro crachá da Globo, de 1970", explica, com o esboço de um sorriso.

A história improvável - embora verdadeira - demonstra um estilo de vida para lá de irreverente do ator que tantas vezes interpretou tipos sisudos na tevê. Como o revolucionário espanhol Galvez, seu personagem na minissérie Amazônia - De Galvez a Chico Mendes, de Glória Perez. O ator mergulhou fundo na história do Acre para compor mais um personagem real, dentre tantos que já viveu, como o presidente Juscelino Kubitschek, o cangaceiro Lampião e o político Tenório Cavalcante.

Mas o Galvez de Wilker é bem menos sisudo que seu JK. O aventureiro espanhol permite ao ator uma certa fanfarrice em algumas cenas. "O Galvez me interessa há muitos anos. Desde o final dos anos 60, quando assisti a história desse homem numa peça, me encantei. Sempre quis representá-lo", diz o ator, recentemente separado da atriz Guilhermina Guinle. Leia a seguir a entrevista com o ator:

P - Você ligou para a Glória Perez e se ofereceu para fazer o Galvez assim que soube que a autora estava escrevendo uma minissérie sobre o Acre. Por quê?
R - Não sei porque fiz isso. Foi a primeira vez. Essa atitude não faz parte do meu caráter. Mas pedi para ela pensar se eu poderia fazê-lo. A primeira vez que soube do Galvez foi no final dos anos 60, no teatro. Ele foi encenado de uma forma libertária. Quando assisti, me deu vontade de fazer. A memória dessa experiência me impulsionou a ligar para a Glória.

P - Você interpretou vários personagens históricos, como Tiradentes e Lampião. Seu último papel, o presidente JK, foi muito criticado. Você não temeu emendar dois personagens reais na tevê?
R - Um personagem real é difícil de fazer por ter vários donos. Muitos sabem sobre eles. No caso de Juscelino, me disseram que até o nó da gravata que eu usava estava errado. Houve grosserias. Disseram o quanto eu e Marília Pêra estávamos caricatos. Relevo porque isso faz parte da incompetência, da falta de informação de uma suposta crítica de televisão deste país. Mas, para fazer esses personagens, é preciso estar preparado para essas coisas. Com o Galvez é diferente, porque não existem registros fotográficos dele. Só vi uma foto dele muito velho, já em sua decadência.

P - Onde você buscou elementos para essa composição?
R - Li diversos livros, como La Estrela Solitária, de Alfonso Domingo, e o Imperador do Acre, de Márcio de Souza. Gosto de História. Leio muito, me informo. Não sei em que momento faço a ponte do que absorvo para o personagem. Acho que é incorporado instintivamente. Um ator tem de ter algum objetivo. O meu é apenas atuar. Se quisesse a notoriedade, apareceria nas festas, nas inaugurações de lojas, em desfiles de moda e me empenharia em mostrar minha privacidade para falar sobre quem eu estaria comendo. Ser ator para mim é um projeto de vida. Uma crítica por um único papel não avalia o trabalho de um ator. A crítica é necessária, mas é feita por pessoas que olham a tevê com desprezo.

P - Por quê?
R - A tevê está entregue a pessoas despreparadas. Grande parte das matérias de tevê são fuxico, fofoca. Isso contribui para que o nível da tevê seja medíocre. Não sou muito telespectador, porque gosto de assistir aos filmes que tenho em casa. Mas às vezes chego cedo e fico mudando os canais. Fico chocado com o ar de seriedade que principalmente os programas vespertinos têm, ao mostrar lixo como se estivessem prestando um serviço. Isso é calhorda, é imoral!

P - O que você acha que vale a pena na tevê?
R - Não tenho a pretensão que a grade das emissoras tenham meu gosto pessoal. O objetivo da tevê é atender ao anunciante. O que fazemos em minisséries, por exemplo, é passar um verniz cultural, relembrar a Semana de Arte Moderna, as guerras do Sul, o governo JK. Faço tevê porque me divirto fazendo novelas e minisséries. Não tenho uma relação de obrigação, de desprazer com o trabalho. Atuar para mim é uma fonte de prazer.

P - Você é contratado da Globo desde 1970 com um salário de ator e diretor. Seu último trabalho como diretor foi em Sai de Baixo. Por que dirige tão pouco?
R - É necessário ter talento e temperamento para dirigir novelas. Talvez eu tenha o talento, mas não o temperamento. Não tenho essa generosidade de me dedicar 24 horas por dia a um projeto durante um ano inteiro e não ter minha vida pessoal, não ter a preguiça como minha amiga. Dirigi duas novelas na Globo, Transas e Caretas e Louco Amor. Gostei de dirigir o Sai de Baixo. Me ocupava menos. Prefiro assim. Durante anos batalhei num projeto que acabou não saindo, mesmo aprovado pela alta cúpula. Era uma série de cinco espetáculos inspirados em obras de William Shakespeare feitos para crianças. Seria exibido em outubro, no mês da criança. Mas ainda não desisti. Mesmo assim, prefiro atuar.

P - Você começou como ator por acaso, ainda em Juazeiro do Norte, onde nasceu. Como foi?
R - Não queria ser ator. Não quero até hoje (risos). Fui entrar em um grupo de teatro. Depois fiz coisas na tevê do Recife. Apenas ganhava um troco porque queria morar sozinho. Fazia peças nas ruas com um grupo da prefeitura. Era um trabalho de manifestação e eventualmente servíamos como divulgação para os cursos de alfabetização do Método Paulo Freire. Foi uma boa escola. Investigava tudo o que se referia ao teatro. Nosso objetivo era fazer uma revolução, tomar o poder, sei lá! Quando teve o Golpe Militar, me vi perdido. Me mudei para o Rio para fazer cinema. Meus amigos estavam exilados ou em cana. Fiz uma peça sobre Juazeiro do Norte e achei estranho as pessoas pagarem para me assistir. Na década de 70, quando encenei O Arquiteto e o Imperador da Assíria, de Arrabal, deu uma virada na minha cabeça. Comecei a me encantar pela magia da interpretação. Já faz tempo.

P - Este ano você completa 60 anos. Nesses 28 anos de tevê, que avaliação você faz da sua carreira?
R - Uma vez estava filmando O Curandeiro da Selva - de John McTiernan - com o Sean Connery no México. Olhei para o Sean e disse: "Para um cara que é de Juazeiro do Norte, até que cheguei bem longe!" (risos). Não dou essas paradas para pensar. Nunca planejei minha carreira, nem batalhei nada. As coisas foram acontecendo, nunca me preocupei. A idade ainda não me pegou. Continuo me comportando como um pré-adolescente. Me permito brincar com tudo. Não me levo a sério. Falo mil teorias para as pessoas, mas tanto faz. Gosto mesmo é de me divertir, de ter prazer, viajar, de morar fora do país às vezes.

P - Um tempo atrás você disse que se mudaria para Hollywood para tentar uma carreira internacional. O que houve?
R - Acabei morando uma época em Nova Iorque. Da mesma forma que morei um período em Lisboa porque não queria viver no Brasil no mandato do governo Collor. Tinha feito muitas novelas e filmes e precisava experimentar viver de uma forma diferente, onde ninguém soubesse quem eu sou. Fui para Nova Iorque com meu "book" e meu vídeo de trabalhos embaixo do braço atrás de agentes, de diretores de "casting". Fiquei 10 meses. Até hoje tenho um agente lá. Tudo que ele me pede para fazer eu não faço. Ele falou para eu fazer o filme Anaconda. Li o roteiro e gostei do filme até a quinta seqüência. Na oitava, a cobra me comia. "Não quero isso não!" (risos). Depois não quis fazer Perigo Real e Imediato - de Phillip Noyce. Logo me arrependi. Fui muito seletivo. Descobri que odeio o sentimento brasileiro de que o que é importado é melhor. Ninguém fica melhor porque tem uma carreira internacional. Sou um ator brasileiro, de Juazeiro.

Arrebatado pelo cinema
José Wilker costuma dizer que sua primeira janela para o mundo foi o cinema. "Gosto de cinema desde que me lembro que enxergava alguma coisa", explica. Tanto que, aos cinco anos de idade, o ator fugia de casa para assistir escondido a filmes no único cinema de sua cidade, em Juazeiro do Norte, no Ceará.

Desde então, Wilker se aprofundou no assunto não só como ator e diretor. Com mais de 7 mil filmes em sua cinemateca particular, o artista também não disfarça o orgulho em dirigir a Riofilme - instituição ligada à Prefeitura do Rio que financia a produção cinematográfica - há quatro anos. "Quando pintou a possibilidade, topei na hora. É minha chance de contribuir de alguma forma", acredita.

Outro xodó do Wilker, relacionado ao cinema, é a apresentação do Oscar, na tevê por assinatura Telecine. Basta questionar alguns indicados deste ano que o ator se delicia ao fazer observações minuciosas sobre cada produção. Comentários que também são feitos no programa Cine Paradiso, que Wilker apresenta na Rádio Paradiso, no Rio. "Só não gosto da compulsão que o brasileiro tem em ganhar o Oscar. Isso não vai mudar absolutamente nada no nosso cinema", sentencia.

À flor da pele
Atuar em mais de 35 personagens na tevê e citar os que trazem melhores lembranças não é uma tarefa fácil. José Wilker prefere "lembrar" os que não gostou de fazer. "Eles cabem em apenas uma mão", desconversa. Mas os inesquecíveis por fazerem sucesso são visivelmente degustados pelo ator. Giovanni Improtta, por exemplo, o divertido bicheiro que interpretou em Senhora do Destino, de Aguinaldo Silva, foi um de seus personagens mais carismáticos. Mas o que mais trouxe um retorno emotivo do público foi Juscelino Kubistchek. "Algumas pessoas me olhavam e choravam. Certa vez, uma senhora em Diamantina me agarrou e disse: 'Eu dancei com você em 1950! Lembra?'", diverte-se.

Trajetória Televisiva
# Bandeira Dois (Globo, 1971) - Zelito.
# O Bofe (Globo, 1972) - Bandeira.
# Cavalo de Aço (Globo, 1973) - Atílio.
# Os Ossos do Barão (Globo, 1973) - Martinho.
# Corrida do Ouro (Corrida do Ouro, 1974) - Fábio.
# Gabriela (Globo, 1975) - Mundinho.
# Anjo Mau (Globo, 1976) - Rodrigo.
# Plumas & Paetês (Globo, 1980) - Renato.
# Brilhante (Globo, 1981) - Oswaldo e Sidney.
# Final Feliz (Globo, 1982) - Rodrigo.
# Bandidos da Falange (Globo, 1983) - Tito.
# Louco Amor (Globo, 1983) - diretor.
# Transas e Caretas (Globo, 1984) - Tiago/Diretor.
# Roque Santeiro (Globo, 1985) - Luís Roque.
# Corpo Santo (Manchete, 1987) - Ulisses/Diretor.
# Helena (Manchete, 1987) - Diretor.
# Carmem (Manchete, 1987) - Camilo/Diretor.
# O Salvador da Pátria (Globo, 1989) - João.
# Mico Preto (Globo, 1990) - Frederico.
# Anos Rebeldes (Globo, 1992) - Fábio.
# Renascer (Globo, 1993) - Justiniano.
# Agosto (Globo, 1993) - Pedro.
# Fera Ferida (Globo, 1993) - Demóstenes.
# A Próxima Vítima (Globo, 1995) - Marcelo.
# O Fim do Mundo (Globo, 1996) - Tião.
# Anjo de Mim (Globo, 1996) - Bianor.
# Salsa e Merengue (Globo, 1996) - Urbano.
# A Justiceira (Globo, 1997) - Ronaldo.
# Sai de Baixo (Globo, 1997) - diretor.
# Suave Veneno (Globo, 1999) - Waldomiro.
# A Muralha (Globo, 2000) - Dom Diego.
# Um Anjo Caiu do Céu (Globo, 2001) - Tarso.
# O Quinto dos Infernos (Globo, 2002) - Marquês de Marialva.
# Desejos de Mulher (Globo, 2002) - Ariel.
# Senhora do Destino (Globo, 2004) - Giovanni Improtta.
# JK (Globo, 2006) - Juscelino Kubistchek.
# Amazônia - De Galvez a Chico Mendes (Globo, 2007) - Galvez.
 

TV Press
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