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Domingo, 6 de julho de 2003, 11h22 
Um balanço dos 40 anos das telenovelas no Brasil
 
Rodrigo Teixeira
 
Rede Globo/Divulgação
Escrava Isaura : exportada para mais de 100 países
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- "Alô".
- "2-5499, bom dia".
- "Perdoa-me, foi engano!".

Este foi o diálogo inicial da novela que iria se transformar na primeira produção do gênero a ser mostrada diariamente no Brasil. O par romântico - que se conhece devido a uma ligação errada - era interpretado por Tarcísio Meira e Glória Menezes e a novela 2-5499 Ocupado, que a TV Excelsior começou a colocar no ar há 40 anos, em julho de 1963.

Na verdade, quando estreou, a novela era exibida em São Paulo às segundas, quartas e sextas e a emissora enviava os videoteipes de 2-5499 Ocupado para as outras capitais. A Excelsior do Rio de Janeiro, em setembro de 1963, percebendo que poderia atrair mais publicidade e habituar o espectador a acompanhar a novela, resolveu arriscar e exibir a novela diariamente. Com isso, acabou abrindo caminho para o gênero ganhar mais público. "Tinha antipatia por novelas e aceitei fazer porque achei que não fossem assistir. Mas a novela repercutiu entre pessoas que não gostavam de teatro. Desde então aprendi que novela é imprevisível", afirma Tarcísio Meira.

Mas a primeira novela diária a fazer sucesso no país foi O Direito de Nascer, em 1964, na TV Tupi, que tornou populares os personagens Mamãe Dolores, Albertinho Limonta e Maria Helena. Quem imperava no Brasil nesta época era mesmo Glória Magadan. A exilada cubana ficou conhecida por escrever dramalhões ambientados em países distantes do Brasil. Sua primeira novela na Globo foi O Sheik de Agadir, em 1966, com o "sheik" vivido por Henrique Martins e a mocinha interpretada por Yoná Magalhães. Mas Magadan era capaz de desatinos. Como matar o personagem de Sebastião Vasconcelos, só porque ele usava barba e bigode e parecia com Fidel Castro. "A Glória não destacava os costumes e as belezas do país. Isso só foi mudando aos poucos", lembra Marieta Severo. A atriz estreou na novela aos 19 anos como uma vilã, a princesa árabe Eden de Bassora. A personagem de Marieta, na verdade, era o misterioso Rato, que durante toda a novela só mostrava as mãos enluvadas e cometia diversos assassinatos.

Foi com Beto Rockfeller que o brasileiro começou a se reconhecer nas tramas das novelas. A produção, exibida na TV Tupi em 1968, modificava o conteúdo habitual das novelas ao apostar em uma trama com situações e personagens bem brasileiros. Vivido por Luiz Gustavo, o protagonista se infiltra na alta sociedade paulistana para tentar subir na vida. No rastro de "Beto", a Globo aposentou o estilo "Magadan" e passou a produzir tramas calcadas nos costumes brasileiros, sob a batuta de Janete Clair.

A autora estreou na emissora com Véu de Noiva, em 1969, arrebatou o público com Irmãos Coragem, em 1970, e transformou a Globo em líder de audiência. Além de ambientar a trama de Irmãos Coragem em um garimpo de Goiás, Janete criou personagens bem populares para os irmãos vividos por Tarcísio Meira, Cláudio Cavalcante e Cláudio Marzo. "O incrível é que Irmãos Coragem falava de disputa de terras em plena repressão militar. Foi um avanço", pondera Milton Gonçalves, que dirigiu Irmãos Coragem e é atualmente o ator com contrato mais antigo na Globo.

O Bem-Amado, em 1973, foi a primeira novela exibida em cores no Brasil. A trama de Dias Gomes enfocava o prefeito baiano Odorico Paraguaçu, papel de Paulo Gracindo, e a inauguração do cemitério de Sucupira. Foi a primeira novela brasileira a ser vendida para o exterior, começando pelo México e chegando a toda América Latina. "O Bem-Amado despertou a consciência política no brasileiro. Foi importante as pessoas terem recebido bem esta novela", acredita Lima Duarte, que fez o inesquecível Zeca Diabo.

Três anos depois, a Globo exibiu Escrava Isaura, adaptação de Gilberto Braga para romance de Bernardo Guimarães. Com a estreante Lucélia Santos como a escrava branca do título, a produção foi vendida para mais de 100 países. "Até os monges do Himalaia já me reconheceram. Ninguém esperava que a novela brasileira chegasse tão longe", afirma Lucélia.

De capítulo em capítulo, a novela diária se transformou no produto mais importante da televisão brasileira, ganhou projeção internacional e se tornou um símbolo de brasilidade em todo o mundo. Mas o auge do gênero aconteceu com Roque Santeiro, em 1985. A novela de Dias Gomes e Aguinaldo Silva fez o Brasil parar para acompanhar a história de Viúva Porcina e Sinhozinho Malta. Os dois últimos capítulos da trama tiveram inimagináveis 100% dos televisores do país sintonizados em Roque Santeiro, feito até então alcançado apenas por Selva de Pedra, em 1972. "Sucesso como o de Roque Santeiro não tem explicação e dificilmente acontece duas vezes", avalia Aguinaldo.

Em 1988, a Globo colocava no ar Vale Tudo, de Gilberto Braga, uma das mais ferozes críticas sociais ao Brasil e que levou o país a indagar "quem matou Odete Roithman?", papel de Beatriz Seggal. "A novela questionava até que ponto valia ser honesto no Brasil", relembra Gilberto.

Mas foi a extinta Manchete, com Pantanal, que provocou a terceira modificação importante nas novelas brasileiras. A novela de Benedito Ruy Barbosa contava a saga da família Leôncio, que se transformava em uma das grandes criadoras de gado da região pantaneira sul-matogrossense, e havia ficado oito anos na gaveta da Globo. "Antes as novelas só tinham 10% de externas. Pantanal inverteu esta ordem e mudou a maneira de se produzir novela no Brasil", valoriza Benedito.

Em 1997, a mesma Manchete transformou Taís Araújo na primeira protagonista negra de uma novela brasileira com Xica da Silva e no mesmo ano o SBT assustou a concorrência com a infantil Chiquititas, adaptada do original argentino. "Conquistamos um público que queria histórias mais tradicionais", avalia a protagonista Flávia Monteiro.

Mas apenas a Globo chegou ao final da década de 90 com "know-how" e saúde financeira para realizar superproduções diárias. Terra Nostra, em 1999, virou uma espécie de continuação de Benedito Ruy Barbosa para a novela Os Imigrantes, exibida na Band em 1981, só que tratando apenas da imigração italiana.

Na direção, Jayme Monjardim, o mesmo que em 2001 iria dar tratamento épico para O Clone, de Glória Perez, com gravações em Marrocos e uma trama inusitada que misturava clonagem, cultura árabe e a irreverência do subúrbio carioca. "Enquanto houver boas histórias e bons atores, o gênero novela nunca vai acabar no Brasil", profetiza o diretor.
 

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